As duas

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Segundo consta nos diários, há dois anos penso em fazer algo sobre a Trish Keenan – cantora do Broadcast falecida em 2011 em decorrência do H1N1 – seja um livro, um disco, um livro sobre um disco, enfim. Há mais de uma década que ela exerce um grande fascínio sobre mim. A voz doce e maldita, muito de acordo com as sereias do Prufrock de Eliot, a morte muito precoce, o tema da canção inacabada “The song before the song comes out”.

No outro lado do mesmo tipo de fascínio, segundo consta nos diários, há seis meses penso em fazer algo sobre a Laura Riding – poeta norte-americana que nasceu em 1901 e atravessou o século XX – seja um livro, um disco, um disco sobre um livro, enfim. Seus poemas incontornáveis, seu propósito sincero em largar a poesia e começar uma pesquisa pela verdade pelos caminhos da linguagem, sua tentativa tonta de suicídio, sua longevidade, sua filosofia muito particular.

Acontece que fiz as duas coisas numa coisa só: escrevi um livro de dezesseis textos sobre essas duas e sobre mim. Chama-se “As duas” e será lançado amanhã junto com outros pequenos livros pela coleção Megamíni da sempre presente 7Letras. Todas as informações estão no convite acima. Venha. Venha depressa porque só farão 50 de cada um.

Casa e Praia na Pessoa

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Uma das maiores alegrias da literatura pós-diluviana em que vivemos é a coluna Milímetros escrita pelo Victor Heringer, o nosso Vituxo, na Revista Pessoa (que é um oásis maior onde mora esta e outras colunas). Victor resolveu me entrevistar e falamos sobre o Casa e o Praia, sobre a casa e a praia, sobre as ilhas, sobre os amigos, sobre ruínas e memórias. Foi uma honra, ainda é uma honra e será uma honra (enquanto houver internet) estar lá na Milímetros. Vale ler todas as crônicas do Heringer e também ler as entrevistas (muito melhores do que a minha) que ele fez com Matilde Campilho, Ismar Tirelli Neto e Marília Garcia (uma tríade imbatível). Essa foto que ilustra a entrevista é do Martin Scian. E aqui está o link para a leitura.

Para ouvir uma canção

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Ontem o debate entre Paulo da Costa e Negro Leo no ciclo “Para Ouvir Uma Canção: Voz e Tecnologia” foi essencial pra entender o que se passa com a canção, no Brasil, agora em 2014. Hoje, eu e meu queridíssimo Miguel Jost falaremos, a princípio, sobre canção e novas tecnologias. É pra chegar e discordar ou concordar com a gente. Tá uma uva esse baile. E ainda, quinta e sexta vai (e vão) rolar: Leoni, Marcus Preto, Antonio Carlos Miguel, Fred Coelho, Juçara Marçal e Bernardo Oliveira. Quem for, vai.

Mais informações no Facebook e no site do evento.

Casa na Risco

Nesse sábado nublado de setembro, dois poemas do Casa sairam na página Risco do caderno Prosa & Verso do Globo. Carlito Azevedo, poeta e editor, me colocou, honrosamente, lado a lado com Samuel Beckett (traduzido pelo Marcos Siscar) e com Gais Ama, artista plástico que não conhecia até agora. Abaixo, o texto de Carlito sobre tudo isso e os dois poemas do livro que lá estão.

“Em 1889, Jules Renard já anotava em seu diário que é desesperador ler tudo e não reter nada, ter a consciência de que tudo escapa aos nossos esforços, que aqui e ali apenas alguns fiapos permanecem, frágeis, “como os flocos de fumaça indicando que um trem passou”. Mas será mesmo que é apenas do que lemos que não retemos nada? Da poesia um pouco mais? Menos? De tudo fica um pouco, e é esse pouco que interessa? Camilo Pessanha já reclamava: “Imagens que passais pela retina / dos meus olhos, por que não vos fixais? / Que passais como água cristalina / por uma fonte para nunca mais!”. Soltavam fumaça o trem submarino de Chihiro, o anfibiocóptero de David? Loucura querer mais? Querer reter, ocupar o lado da cama de onde partiu, agora-agora, o trem de outra história, imensa como a Rússia? Livros, cantos, conversas, será que fazem mais sentido do que o zunido dentro da caixa de abelhas que uma bicicleta leva para dar voltas à Lagoa? E isso lá fora, é o barulho de um trem ou são apenas, brincando, crianças no ocaso? O espaço entre dois é a cicatriz ou fronteira? Reza a lenda que Samuel Beckett se casou com a mulher que o encontrou esfaqueado, no chão. Cicatriz, risco. Loucura isto? Tal como a Tamara Kamenszain do livro “Solos y solas”, Mariano Marovatto se quer “okupa” de sua própria casa. Em Sacalina, o oriente ao oriente do oriente? Fronteira entre dois mundos medida por um bater de pálpebras. Loucura isto? Visto que? Dado que? Você morreria por? Iria tão longe? Acolá.”

***

O passado, uma caixinha cheia
de abelhas. A caixinha zune na
garupa como um telefone. A vida
inteira voltada para o bem. Nada
pode deter os delinquentes. Daqui
a alguns meses tudo estará da mesma
forma: robótico. Enquanto voltamos,
em torno da lagoa pneus e céu baixos,
avistamos por um instante a garça
pousada. Quieta, longilínea. Não há
como detê-la. As abelhas calaram-se.

O pátio está coberto por jacas
maduras. Gomos amarelos revelam
as reentrâncias das solas dos
sapatos. As últimas abelhas agonizam.

A casa nova estará cheia de raízes
preparadas para bombardeios.
Os dois irmãos permanecem na janela.
Há uma profunda cicatriz entre eles.

***

Você acaba de sair
e preciso ocupar
sua metade na cama
A cama é minha, estou morto
há indícios de que você seja muito russa
e da Rússia eu só conheço a Sacalina
e da Rússia eu só conheço a Lapônia
estou morto, seus olhos são gigantes
você está em preto e branco
você está falando coisas que não entendo
você está no século passado
seus olhos são gigantes, vivos ou mortos
eu ocupo a cama inteira
você acaba de sair
você é imensa,
você é um trem
eu atravesso a Rússia, eu salto, eu erro
um terceiro andar imenso
da Sacalina para a Lapônia
Há uma gare, você de vestido
há uma gare, você dá boas-vindas
há uma gare, talvez eu não salte
há uma gare, sua boca está viva

Sobre a Praia

Dia 28 de agosto do ano passado – de acordo com o diário das gravações (sim, um diário), depois de um milhão de ponderações acerca do título envolvendo Ismar Tirelli Neto, Alice Sant’Anna e Rodrigo Alcón Quintanilha – foi o dia do batismo do disco: Praia. De lá pra cá, do seu jeito estranho e denso, Praia foi tomando espaço, ganhando ouvintes e grandes amigos. Além de Victor Heringer, Clara Cavour e Carolina Bianchi, responsáveis pelos videoclipes do disco, parte importantíssima foram os que carinhosamente ouviram e escreveram sobre ele. Aqui, nesse post, tento reunir os textos de maior fôlego e que mais me ensinaram sobre o que eu e Ricardo Dias Gomes (com Martin Scian) gestamos entre os dias 4 de abril e 13 de setembro de 2013: respectivamente data do primeiro dia de gravação, ainda sem Ricardo, e data do término da última masterização feita pelo Martin.

Ismar Tirelli Neto, o nosso gênio incontornável, escreveu o release “oficial” do disco.

Maurício Pacheco, co-bróder musical e televisivo, escreveu de surpresa esse texto lindo antes do disco sair.

Lucas Matos, um dos melhores leitores de poesia que conheço, leu o disco no blog da Revista Bliss.

Mauro Ferreira escreveu uma crítica que gostei muito no seu famoso Notas Musicais.

Leonardo Davino, um dos maiores especialistas da canção brasileira, escreveu sobre “Vidraça”, música minha e de Romulo Fróes que está no disco.

Web Mota não só maravilhosamente escreveu, como também disponibilizou o disco para download na sua Musicoteca.

Fred Coelho, last but not least, uma das minhas antenas do século XXI, escreveu coisas tão íntimas sobre o disco e sobre mim que chorei. Mesmo.

Amor imenso a todos esses nomes que, desde então, fazem parte do Praia.

Julho

Este é o centésimo post desse blog. Calhou de ser um post sobre julho, um mês que aconteceu um bocado de coisa aqui pelo .org e que o próprio .org não deu conta. Apesar do mundo ter acabado todos os dias – nossa estranha rotina de tragédias pós-diluvianas – aconteceu também que:

1) Ornitorrinco: Fui admitido como colunista fixo do Ornitorrinco, o site cheio de mentes e amigos brilhantes, e povoado, como ele mesmo diz, de “histórias, ideias e pensamentos contemporâneos”. Portanto, toda semana, acho, uma crônica nova minha pintará por lá. O link tá aqui ou então nessa coluna à direita do seu vídeo.

2) Praia ao vivo: junto com Cairê Rego e Felipe Fernandes, o Praia já teve duas aparições ao vivo e promete mais algumas até o final do ano. A última delas foi um show na Comuna, aqui no Rio, muito do especial. A primeira foi televisionada diretamente do estúdio Maravilha 8 e dá pra ver aqui:

3) Praia ao vivo nº2: durante essa estranhíssima Copa do Mundo Fifa fui convidado pelo programa Faro MPB da querida Fabiane Pereira para falar sobre o meu disco. Meu amigo retumbante, Botika, estava lá também comigo, falando do Picolé da Cabeça, que é o disco dele. Dá pra ouvir clicando aqui e escrevendo nos campos em branco: “faro mpb”, “junho” e “mariano”.

4) Can The Children Come Out To Play: nosso clipe do coração (nosso porque ele é meu e das amadas e gênias Clara Cavour e Carolina Bianchi) está agora no YouTube também. Portanto, se você deseja revê-lo, mostrá-lo para um amiguinho novo (ou antigo), compartilhá-lo, execrá-lo, etc, eis o link mais massa para fazê-lo:

Can the children come out to play?


Um clipe de Carolina Bianchi, Clara Cavour e Mariano Marovatto
Direção, edição e fotografia de Clara Cavour
Canção de Mariano Marovatto e Ismar Tirelli Neto
Contrabaixos, sintetizadores e teclados de Ricardo Dias Gomes
Voz de Mariano Marovatto
Mixado e masterizado por Martin Scian
Produzido e arranjado por Mariano Marovatto e Ricardo Dias Gomes

Ano passado eu e Ismar Tirelli Neto encasquetamos que iríamos ganhar dinheiro fazendo canções para concursos gringos. Caiu-nos no colo um desses contests cujo tema era música tema para um filme de terror. Ismar, lembrou então de uma fita italiana que contava a história de uma senhora que era tida como bruxa assassina de crianças num vilarejo italiano. Ao final do filme a senhora é assassinada pela população local, mas as crianças continuam a morrer. Sinistro. Nossa singela canção, com letra em inglês versa sobre isso. E não, não enviamos a música para o concurso e não, não ganhamos. (E o filme do concurso era na verdade uma espécie de Jogos Mortais e tinha um personagem com uma espécie de aspirador de pó high-tech ligado ao cérebro).

Mês passado, eu, Clara Cavour e Carolina Bianchi resolvemos fazer o videoclipe dessa canção, mantendo a ironia, o medo e a bizarrice da gravação e da letra, adaptados para uma manhã cotidiana desse casal de personagens cheio de sangue e patins. Serão eles os verdadeiros assassinos de criancinhas italianas? A ver.

(Sim, sou eu cantando na gravação.)

(É minha primeira atuação em anos. Obrigado Teatro Tablado.)

(De repente percebi que todos os meus clipes têm como tema o amor entre casais heterossexuais. Espero que o próximo cuide de não ser assim.)

Praia ao vivo, hoje

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Hoje às 22hs, clicando nesse link aqui.

Mariano Marovatto: vozes, violão e guitarra
Felipe Fernandes: guitarra, synths e programações
Cairê Rego: baixo
Opavivará: cenário
Maravilha 8: o palco de tudo isso

Casa

Meu novo livro, Casa, ainda não está pronto, mas já levo ele pra passear pelo mundo e pra conversar com as pessoas que eu gosto. Nas últimas semanas publiquei um texto no Ornitorrinco e gravei um depoimento pro Projeto Retratos da Clara Cavour falando sobre ele.

Ornitorrinco:
Sobre Muletas e Epígrafes

Projeto Retratos:

A Mutante

Foi em outubro de 1996 que conheci Jonas Sá via Fernando Caruso, meu amigo do Tablado e amigo de Jonas do colégio. Éramos os únicos da festa promovida pelo Fernando que sabíamos tocar violão, eu muito mal. De cara nos tratamos como rivais entre as meninas e não nos gostamos. Mas duas horas depois de festa, já estávamos nos entendendo entre acordes, pestanas e canções. Mal sabíamos que a partir dali nossas vidas musicais e amorosas mudariam para sempre, a minha pelo menos. Foi nesse big-bang da nossa amizade, antes mesmo de começarmos a fazer músicas juntos, que ouvi a primeira vez A Mutante. Diferentemente das outras canções dele daquela época, que ele costumava me mostrar ao violão, A Mutante ouvi a primeira vez numa fita cassete, com Jonas cantando e tocando violão, Maurício Pacheco tocando teclados e Moreno Veloso tocando cello. Achei aquilo excepcional e mil vezes mais interessante do que o que tocava em português no rádio.

Jonas é como Paul McCartney e despeja a toda hora no mundo canções de qualidade sem qualquer pudor. Dessa forma A Mutante e sua gravação foram ficando para trás: Jonas foi compondo, compondo, gravou seu primeiro disco, gravou seu segundo disco e, até 2013, ano do Praia, passaram-se 17 anos desde a primeira audição d’A Mutante. Quando em maio passado pensei em gravar a canção para o Praia, mostrei pro Ricardo Dias Gomes – que produziu comigo e tocou praticamente todos os instrumentos do disco – e ele não falou outra coisa senão “é claro que você e só você pode e deve regravar essa canção”. E então fizemos. Pedro Sá, outra única pessoa que poderia participar dessa regravação, tocou as guitarras e a música ficou pronta.

Depois disso tudo é que se enxerga os desdobramentos improváveis da criação artística. Jonas fez a canção pra um amor que não deu certo, eu me apaixonei pela persona artística de Jonas por conta dessa canção, Ricardo e Pedro regravaram comigo, anos e anos depois, a mesma canção que – com a troca de arranjo – ganhou novas nuances que não existem na gravação original. Daí, nesse ano de 2014, Victor Heringer, que em 1996 tinha apenas 8 anos de idade, escutou e agora me presenteou, ou melhor, nos presenteou com esse videoclipe lindo de morrer, ressignificando em mais um estágio essa canção tão mutante. Como escreveu o guitarrista e compositor Rafael Castro uma vez no Facebook: “ou eu tenho os amigos mais geniais do mundo ou eu desperto uma coisa maravilhosa dentro deles”. Acredito piamente na primeira opção.

Abaixo o texto do Victor sobre o clipe e tudo isso. Claro que muito melhor do que o texto acima.

Foi na praça São Salvador, saudoso Rio de Janeiro (descanse em paz!), não lembro se aniversário de alguém ou reunião de-sempre. Ano passado. Lá estávamos eu e o Mariano. Ele perguntou se não seria legal se fizéssemos um clipe juntos, do disco novo, o disco novo ia se chamar Praia. Eu disse que seria. Fiquei matutando. Mudei de cidade, desempreguei, fali, casei. Vim morar longe da praia. Aqui pelo menos não faz tanto calor.

Corta para: São Paulo, março de 2014. Jantar em casa de Leo e Marília, lá estávamos nós: o amável casal-poeta, minha mulher, eu e Mariano. Nossas posições no espectro amoroso bastante mudadas, o clipe voltou às nossas bocas e planos. Na minha cabeça, ocupada só pelo amor desde há-muito, o filme começou a tomar forma.

Ele tinha me dado a escolha da música e liberdade total na feitura do clipe. Cravei sem dúvida a canção do Jonas Sá, “A mutante”, porque, como dizia um poeta da terra velha, “ó coisas todas vãs, todas mudaves!” Quem confia nelas? Pois eu, bobo e derramado, tenho que confiar. Mas o filme era amorfo, até que entendi certas coisas que Amor vinha me dizendo, que todo mundo diz, mas meu cinismo não aprendia. Um dia, eis que tomou forma definitiva de filho fílmico.

Duas coisas se repetem no clipe: o dito “minha namorada” na voz do Mariano & o meu escrito que pergunta “O amor é isto?”. O restante, tudo muda, porque mudável. A pergunta pergunta as imagens e pergunta a música. A música vai mudando na superfície, mas segue sendo “minha namorada” no fundo (tundun-tundun, tundun-tundun, tudo-tudo… x∞). É meu jeito de dizer que o amor só permanece quando constantemente perguntado, revivido e ressignificado. Quero dizer: as coisas só permanecem porque mudam. Aquele amor nem me fale.

Mas de onde vêm as imagens que editei, remontei e sobre as quais rabisquei? Do grande arquivo da história miúda, das gentes menores que viveram e eu não conheci, mas não quero esquecer. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. O amor não é isto também?

Pois é.

Um abraço, Mariano, Jonas, gente.