A Mutante

Foi em outubro de 1996 que conheci Jonas Sá via Fernando Caruso, meu amigo do Tablado e amigo de Jonas do colégio. Éramos os únicos da festa promovida pelo Fernando que sabíamos tocar violão, eu muito mal. De cara nos tratamos como rivais entre as meninas e não nos gostamos. Mas duas horas depois de festa, já estávamos nos entendendo entre acordes, pestanas e canções. Mal sabíamos que a partir dali nossas vidas musicais e amorosas mudariam para sempre, a minha pelo menos. Foi nesse big-bang da nossa amizade, antes mesmo de começarmos a fazer músicas juntos, que ouvi a primeira vez A Mutante. Diferentemente das outras canções dele daquela época, que ele costumava me mostrar ao violão, A Mutante ouvi a primeira vez numa fita cassete, com Jonas cantando e tocando violão, Maurício Pacheco tocando teclados e Moreno Veloso tocando cello. Achei aquilo excepcional e mil vezes mais interessante do que o que tocava em português no rádio.

Jonas é como Paul McCartney e despeja a toda hora no mundo canções de qualidade sem qualquer pudor. Dessa forma A Mutante e sua gravação foram ficando para trás: Jonas foi compondo, compondo, gravou seu primeiro disco, gravou seu segundo disco e, até 2013, ano do Praia, passaram-se 17 anos desde a primeira audição d’A Mutante. Quando em maio passado pensei em gravar a canção para o Praia, mostrei pro Ricardo Dias Gomes – que produziu comigo e tocou praticamente todos os instrumentos do disco – e ele não falou outra coisa senão “é claro que você e só você pode e deve regravar essa canção”. E então fizemos. Pedro Sá, outra única pessoa que poderia participar dessa regravação, tocou as guitarras e a música ficou pronta.

Depois disso tudo é que se enxerga os desdobramentos improváveis da criação artística. Jonas fez a canção pra um amor que não deu certo, eu me apaixonei pela persona artística de Jonas por conta dessa canção, Ricardo e Pedro regravaram comigo, anos e anos depois, a mesma canção que – com a troca de arranjo – ganhou novas nuances que não existem na gravação original. Daí, nesse ano de 2014, Victor Heringer, que em 1996 tinha apenas 8 anos de idade, escutou e agora me presenteou, ou melhor, nos presenteou com esse videoclipe lindo de morrer, ressignificando em mais um estágio essa canção tão mutante. Como escreveu o guitarrista e compositor Rafael Castro uma vez no Facebook: “ou eu tenho os amigos mais geniais do mundo ou eu desperto uma coisa maravilhosa dentro deles”. Acredito piamente na primeira opção.

Abaixo o texto do Victor sobre o clipe e tudo isso. Claro que muito melhor do que o texto acima.

Foi na praça São Salvador, saudoso Rio de Janeiro (descanse em paz!), não lembro se aniversário de alguém ou reunião de-sempre. Ano passado. Lá estávamos eu e o Mariano. Ele perguntou se não seria legal se fizéssemos um clipe juntos, do disco novo, o disco novo ia se chamar Praia. Eu disse que seria. Fiquei matutando. Mudei de cidade, desempreguei, fali, casei. Vim morar longe da praia. Aqui pelo menos não faz tanto calor.

Corta para: São Paulo, março de 2014. Jantar em casa de Leo e Marília, lá estávamos nós: o amável casal-poeta, minha mulher, eu e Mariano. Nossas posições no espectro amoroso bastante mudadas, o clipe voltou às nossas bocas e planos. Na minha cabeça, ocupada só pelo amor desde há-muito, o filme começou a tomar forma.

Ele tinha me dado a escolha da música e liberdade total na feitura do clipe. Cravei sem dúvida a canção do Jonas Sá, “A mutante”, porque, como dizia um poeta da terra velha, “ó coisas todas vãs, todas mudaves!” Quem confia nelas? Pois eu, bobo e derramado, tenho que confiar. Mas o filme era amorfo, até que entendi certas coisas que Amor vinha me dizendo, que todo mundo diz, mas meu cinismo não aprendia. Um dia, eis que tomou forma definitiva de filho fílmico.

Duas coisas se repetem no clipe: o dito “minha namorada” na voz do Mariano & o meu escrito que pergunta “O amor é isto?”. O restante, tudo muda, porque mudável. A pergunta pergunta as imagens e pergunta a música. A música vai mudando na superfície, mas segue sendo “minha namorada” no fundo (tundun-tundun, tundun-tundun, tudo-tudo… x∞). É meu jeito de dizer que o amor só permanece quando constantemente perguntado, revivido e ressignificado. Quero dizer: as coisas só permanecem porque mudam. Aquele amor nem me fale.

Mas de onde vêm as imagens que editei, remontei e sobre as quais rabisquei? Do grande arquivo da história miúda, das gentes menores que viveram e eu não conheci, mas não quero esquecer. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. O amor não é isto também?

Pois é.

Um abraço, Mariano, Jonas, gente.

O amor é isto?

Clipe assinado por Victor Heringer
Canção de Jonas Sá
Contrabaixos, escaletas e teclados de Ricardo Dias Gomes
Guitarras de Pedro Sá
Voz de Mariano Marovatto
Mixado e masterizado por Martin Scian
Produzido por Mariano Marovatto e Ricardo Dias Gomes

Ana Cristina Cesar

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Tive o privilégio de fazer o estabelecimento de texto e a pesquisa de poemas inéditos pro livro Poética de Ana Cristina Cesar. Hoje, no blog da Companhia das Letras, saiu um pequeno texto meu sobre como foi encarar o arquivo da moça.

O lançamento do livro é dia 30 agora, no IMS-RJ. Os detalhes todos e o texto estão no link abaixo.

“10, 20, 31″ – Homenagem à Ana C.

Praia à venda

Essa semana começou a venda digital do Praia na Itunes Store e na Amazon. Dentro em breve outras plataformas digitais vão começar a vender o disco também. Fiquemos atentos!

Aproveitando o post, ficou faltando linkar por aqui o belíssimo texto escrito por Lucas Matos sobre o Praia no blog da revista Bliss. Lucas, além de telepaticamente descobrir que meu disco predileto da música brasileira é o Canções praieiras, do Dorival, publicou dois poemas meus inéditos que estarão no meu próximo livro. Leia tudo aqui.

Esperto que é, Lucas também republicou o antigo texto do grande Leonardo Davino sobre minha versão de “Não tem lua” que está no meu primeiro disco. Davino, por sua vez, me mandou um pequeno questionário sobre o que é a canção e que foi prontamente respondido e postado no seu blog Lendo canção, aqui.

Praia, por Ismar

“Um truque, uma imperceptível troca de lente ou qualquer outro pequeno milagre mecânico, e a praia toda em tons pastéis onde se encontra Florinda Bolkan se transforma, diante de nossos olhos, na própria superfície lunar. Subitamente, dois astronautas aparecem numa das extremidades. Apavorada, Florinda começa a correr – e no instante em que toma impulso, o próprio filme é desacelerado, representando aquela fuga desesperada e fútil em angustiante câmera lenta.

Esta sequência, a última de um (infelizmente) obscuro título italiano dos anos 1970 chamado Le Orme, é a primeira boia que me ocorre para representar Praia, o novo disco de Mariano Marovatto. O que esse álbum sucinto e impressionante nos oferece é uma sombria ressignificação da praia tão doce e docilmente evocada em seu primeiro disco, Aquele Amor Nem Me Fale. Neste primeiro e encantador disco, encontramos Mariano debruçado sobre motivos, tanto melódicos quanto poéticos, pertinentes à bossa nova – a praia sugerida ao longo das canções, e nunca realmente nomeada, é a praia dos passeios românticos, dos panoramas serenos, dos “amores de gente moça”. Em Praia, este panorama nos chega lunar, esvaziado, em preto e branco – a doçura que escapa das canções tem um vago, porém inegável travo de morbidez. A Praia, aqui, é claustrofóbica. Mesmo que fosse imensa, mesmo que fosse a perder de vista – estaria toda ela contida em seus “botões”. Praia de ilha, praia de náufrago – uma solidão populosa de vozes espectrais, chiados fantasmáticos, dissonâncias, sons cuja procedência não conseguimos muito bem situar.

O barco afunda e Mariano não consegue salvar o companheiro violão.

É preciso, então, encontrar uma nova tática para trabalhar a experiência – e mesmo que esta nova maneira de dizer, cantar, compor e gravar conceda à ternura ocasionalmente, esta definitivamente não é a sua tônica. Os espocos eletrônicos que adereçavam certas faixas do todo orgânico e bem-amarrado de Aquele Amor Nem Me Fale agora assumem função protagonística, tornando-se algo como que a própria estrutura da canção, que já não sabemos se é canção, vinheta, seguimento ou mera lembrança. A brevidade e heterogeneidade que caracterizam Praia servem a um propósito claro. É a fulminação de Crusoé, há anos vivendo sozinho em sua ilha, ao deparar-se com uma única pegada humana na areia. É Drummond constatando, no poema Mundo Grande, que as “Ilhas perdem o homem”. É vivência e comentário das ilhas (apartamento, escritório, estúdio) em que nos encontramos o tempo inteiro encurralados e apenas de quando em pouco comunicantes.

Quem ouviu a recente versão que Mariano fez de Incapacidade de Amar, canção pouco conhecida de Cazuza e Leoni, sabia mais ou menos o que esperar de seu próximo disco. Nela, a voz de Mariano já sugere uma intimidade incômoda, uma nudez “laminada” pela cama de sons estridentes e inusitados sobre a qual ele canta – é como se alguém tivesse plantado escutas no quarto de um homem que vive só e canta – para passar o tempo, para não desesperar. O trabalho de Mariano em sua versão de Incapacidade de Amar é tão comovente quanto perturbador – e quando sua voz de fato aparece em Praia, em canções como A Mutante, Vidraça e If, a impressão que se tem a mesma. É curioso que a voz de Mariano, nesta ambiência sonora sci-fi, soe tão mais orgânica e próxima do que nos soou em Aquele Amor Nem Me Fale.

Porém, a voz de Mariano some com alguma frequência, dando lugar – ora a vozes robóticas, como que reduzidas ao próprio processo de cantar, ora à doce voz de Alice Sant’Anna, que também comparece em Aquele Amor Nem Me Fale. No conjunto narrativo que podemos atribuir à Praia, a voz de Alice protagoniza dois momentos decisivos. Em Praia, ela nos soa distante, assinaladamente gravada, sem acompanhamento musical. É a própria pegada com que se depara Crusoé – ou talvez a intrusão de uma lembrança dolorida (uma esperança amarga) no cotidiano insuportável (ainda que o suportemos) da ilha. Em Botões, Alice reaparece, musicalizada, entoando com a delicadeza de uma Claudine Longet uma canção que parece assinalar uma resignação total à ilha – podem me tirar tudo, mas não o indivíduo, o “pensar”, o “meu pensar”. O fato de sua voz ser de uma doçura cristalina nos remete a um idílio de infância – é aqui que se sente o travo mórbido de que falei anteriormente. Sairemos da ilha através da infância? Como empreender este retorno sem, por assim dizer, enlouquecer?

Sim, são muitas vozes – porém, é importantíssimo salientar que são todas vozes em uma cabeça – retalhos de melodia, discurso estilhaçado, acalantos que não nos cantaram quando mais precisávamos. A bonita lullaby indígena que se segue a Botões e fecha Praia, por exemplo, soaria cariciante e quase afirmativa – não fosse a maneira como Mariano decidiu vertê-la e apresentá-la, fazendo-a soar como um MIDI e evocando assim a sonoridade um pouco atordoante daqueles chaveiros “eletrônicos” vendidos na Uruguaiana, ou das melodias que costumam se despregar dos caminhões de gás. Muito mais pode e deve ser dito sobre este estranho e incrível trabalho de Mariano – espero que outros com um vocabulário musical mais refinado o façam para breve. De minha parte, posso dizer que Praia, que começou como um songs from a room – o projeto original de Mariano era compor, executar e gravar um disco em um mês – inspirado por Broadcast, David Sylvian, Laurel Halo e tantos outros, acabou ganhando dimensões locais inteiramente específicas, integrando a seus blips e multiplicidade de vozes o encurralamento, a tensão e a inquietude que todos nós passamos a vivenciar, em maior ou menos grau, de uns tempos para cá.

Talvez o Rio de Janeiro de Aquele Amor Nem Me Fale não seja mais possível. Hoje em dia, parece que somos convidados a uma despedida por semana. Os que ficam, trancam-se no banheiro e cantam – cantam qualquer coisa que lhes venha à mente – cantam para não desesperar.”

Ismar Tirelli Neto, outubro de 2013

Praia, terça-feira, 29 de outubro

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Praia, por Rodrigo

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Praia é onde todo mundo se junta: gorilas, poetas, namoradas, personagens de arcade, uma bruxa ou uma sereia, condes e condessas, ciborgues que sussurram as coisas mais lindas no teu ouvido e índios que cantam mandalas para ninar… Isso mesmo: Praia é sem pressa, é vai-e-vem de frequências diversas. É sono sobre a areia e brincadeiras salpicantes. É uma eternidade que passa voando deliciosamente. É sempre a mesma e sempre diferente. É querer voltar mesmo sem ter ido embora ainda.”

Rodrigo Alcon Quintanilha é fotografo, artista visual e autor da capa de Praia.

Praia, por Maurício

Ontem meu co-irmão televisivo e musical, Mauricio Pacheco, veio aqui em casa pegar meu violão emprestado. Aproveitamos e escutamos o meu disco novo juntos. Ele ainda não tinha ouvido nada de nada do disco nem do que eu fiz com a canção que ele me deu pra gravar. Conversamos nos despedimos e, qual foi não foi minha surpresa no meio da madrugada quando chegou na minha caixa postal essa primeiríssima resenha do Praia, extremamente sensível e carinhosa escrita pelo apresentador e roteirista mais gato do Segue o Som:

“O Novo disco do Marovatto é (mais) um sopro de novidade no panorama musical de nossa caótica cidade. “Praia” é um disco muito bonito, singelo, e surpreende por mostrar de forma tão agradável o mundo de seu autor. A alegria e o desprendimento com que Marovatto entrega a continuidade de sua obra discográfica ao talentoso Ricardinho é contagiante. Se em seu disco de estréia Marovatto reuniu um verdadeiro time de instrumentistas e artistas da cena carioca para vestir suas composições individuais, em “Praia”, seu segundo esforço fonográfico, ele se multiplica em parcerias e se rende ao abraço fraterno de seus amigos compositores que lhe emprestaram letras, canções inteiras, ou se divertiram com ele no fazer de novas músicas. E tudo saiu assim, simples, sem mistério, e com muita profundidade. A densidade da cultura musical e literária do Marovatto se revela ao longo do disco, no rigor estético que há além da superfície minimalista dos arranjos, na poesia que habita as letras e as insinuações melódicas dos instrumentos, no chiado futurista dos efeitos de fita, e na voz linda da Alice.

Fazer música, pra quem tem uma boa bússola, talento e auto-conhecimento, é uma atividade muito libertadora e prazerosa. Foi o que senti ouvindo pela primeira vez esse cuidadoso presente que o Marovatto nos deu, de graça, assim como quem não quer nada.”

A vida imita a arte, ou Benito Sinistro

Ano passado publiquei um livrinho-plaquete chamado Mulheres Feias Sobre Patins. Há lá, entre os versinhos engraçadinhos do livro, o pequeno poema chamado “O domingo mais triste dos últimos anos” que é assim:

“Moro num quarto e sala cuja metade
está ocupada por Benito di Paula e seu
piano de cauda.”

De lá pra cá, algumas declamações e kakakás sem mais. Porém, eis que ontem, DOMINGO, sai no jornal a seguinte notinha:

benito

É isso, amigos.

P.S.: Não sei se foi algum trocadilho mal compreendido do Globo, mas o nome da canção de Benito é “Retalhos de cetim” e não “Retratos de cetim”. Mas acho que foi erro mesmo. É normal, ao longo da história, o primeiro caderno do Globo errar, né?

Agenor

agenor

O melhor presente que os ouvidos em formação nascidos por volta de 1990 poderiam receber é escutar Cazuza tendo como uma primeira referência o Agenor. E também é o melhor presente que Cazuza poderia ter nos seus 60 anos – ser gravado por quem nunca gravou suas músicas (e por alguns que talvez nunca gravariam se não fosse o convite de Zé Pedro e Lorena Calábria). O fato é que há 30 anos Cazuza vinha sendo gravado pelas mesmas pessoas: em ampla maioria amigos próximos do cantor, testemunhas de sua vida gigante e de sua morte trágica. Toda renovação demanda uma ruptura e a grande felicidade de Agenor foi romper com a solenidade (e a sonoridade) com que a obra de Cazuza foi reproduzida até agora. Da minha parte, é um orgulho máximo fazer parte desse disco, ao lado de tantos amigos que tanto admiro, regravando uma parceria de Cazuza com Leoni, compositor que está no meu top five da geração pop-rock dos anos 80. Dia 28 de agosto tem o show de lançamento aqui no Rio. Vai ser impossível recriar o que foi feito em estúdio para a grande maioria das versões do disco, inclusive a minha. Mas, para a felicidade de geral, a banda incrível que vai estar no palco fará subversões das novas versões que prometem ser tão refrescantes quanto o repertório de Agenor. Imperdível, amiguinhos!

2013-08-28-agenor6