Nagasaki

Três dias depois da bomba de Hiroshima, os norte-americanos despejaram a bomba de Nagasaki. Por conta do mau tempo e da fumaça das batalhas, minutos antes o piloto, responsável pela Fat Man, havia desistido do bombardeio. Mas, logo depois do aviso de desistência à torre, abriu-se um céu azul entre as nuvens e ele retomou sua missão: instantaneamente 74 mil pessoas foram assassinadas. há exatos 70 anos atrás. No dia 21 de janeiro de 2015 eu fui a Hiroshima e – também três dias depois – no dia 24, eu visitei Nagasaki. Seguem mais alguns trechos do meu caderno de viagens.

“Cheguei aqui – depois de quase cinco horas fastidiosas de trem – e saltei do vagão com uma família de húngaros. Todos nós atrás do hipocentro da bomba. “Desculpe, você é japonês?” Não, eu não era. “Brasil, já estive no Brasil. O Japão é o oposto do Brasil. Você deve estar completamente perdido por aqui”. “I know, it’s insane”, respondi. Nos despedimos e fomos todos para a direção errada.

Moleza nas ruas, nas pessoas. Japão com vírus ocidental. Portugueses, holandeses. A bomba.

É possível caminhar até o monolito do hipocentro e tocá-lo. Força repulsiva para fazê-lo. Mais lágrimas. Passam carros, ambulâncias, pouquíssimos turistas. A cidade está alheia. Acostumada. Sentar no banco da praça do hipocentro e comer o resto do sanduíche da manhã. Os últimos goles da Coca-Cola. Existe um estado de silêncio, uma calmaria, proporcionadas somente por estas bombas.

No sul de Nagasaki as pessoas estão despertas. No primeiro café da cidade – que funciona desde antes da bomba – carne de porco com macarrão servidos com garfo e colher. De sobremesa, pudim e frutas.

Na entrada do museu da bomba de Nagasaki, uma voz alta e velha de um senhor parece sair dos alto-falantes. Um testemunho da explosão da bomba nos céus de Nagasaki. As primeiras fotos da destruição da cidade seguem por uma curva. Ao final da curva, a voz, que de fato é de um senhor. Um guia voluntário do museu. Fala altíssimo, sem interrupção. Conta alguma história com sofreguidão na voz. Repete a palavra Genbaku algumas vezes. Me distancio dele, mas a voz permanece ao fundo, em todas as salas do museu.”

Hiroshima

Hoje, 6 de agosto de 2015, faz 70 anos que a primeira bomba atômica norte-americana foi jogada sobre o Japão, em Hiroshima, matando instantaneamente 80 mil pessoas. No dia 21 de janeiro de 2015 eu estive em Hiroshima. Aqui estão as notas que escrevi no meu caderno de viagem do Japão. O nome do meu próximo livro será Ikeru.

“Apenas eu olhava o cenotáfio de longe quando o guarda voluntário do parque chegou solitário para verificar a condição das flores deixadas para as vítimas da bomba. Ele não me viu. Ele estava sozinho. Tirou o seu quepe, curvou-se respeitosamente diante dos mortos [cujos corpos evaporaram ali, num instante, no dia 6 de agosto de 1945]. Curvou-se solitário antes e depois de verificar as flores, eu vi. Ele não me viu. Ele não via ninguém.

Ao saltar do bonde deve-se somente atravessar a rua e lá está a ruína do Genbaku Dome. Impossível não engasgar, impossível não segurar o soluço. Impossível sair dali. Nunca mais sairei dali.

A entrada do museu da bomba custa 50 ienes [1 real]. A entrada dos templos budistas de Kyoto custam 500 ienes [10 reais]. Restos de pessoas e as primeiras fotos da fumaça, tiradas a quilômetros de distância. As roupas queimadas do menino, que não se sabe como, conseguiu chegar em casa. Seus pais cuidaram dos ferimentos até a manhã do dia seguinte, quando o garoto morreu.

O silêncio de Hiroshima é mais profundo. É calmo e perturbador, como a morte. Ali é o jardim do Éden. Ali os vivos assistem, perturbadoramente caminhando, o que é a vida após a morte. É o lugar mais acolhedor do mundo.

Pessoas têm suas janelas e varandas voltadas para o parque do Genbaku Dome. Acordam todos os dias e abrem as janelas. Essas pessoas devem pensar muito diferentemente das outras. Devem agir, caminhar, comer, fazer sexo, ter filhos, muito diferentemente de nós.

Não tenho a mínima ideia qual cidade esse trem em que estou agora cruza.

Somente eu chorava em público ali no parque da bomba atômica.”

Em estantes, gaiolas, em fogueiras

Pois bem, depois de parir três livros, ao mesmo tempo, cada um agora quer sua festinha própria. E agora, o problema não é só meu, mas de vocês também. A agenda de lançamentos marovatto.org pós-Flip é intensa. Atentem, anotem e VENHAM. É ASSIM:

quando: terça-feira, dia 7 de julho, às 19:30
onde: Livraria da Travessa de Botafogo (Voluntários da Pátria, 97)
o que: leio poemas de Matilde, junto com Laura, no lançamento carioca do Jóquei da portuguesa.

quando: quinta-feira, dia 9 de julho, às 19:00
onde: Livraria da Travessa de Ipanema (Visconde de Pirajá, 572)
o que: Lançamento do As quatro estações. Vamos cantar “Faroeste caboclo”, também, sim.

quando: segunda-feira, dia 13 de julho, às 16:00
onde: no Sem censura da TV Brasil. Nem precisa sair de casa.
o que: converso com a Leda sobre Legião Urbana, poesia e música.

quando: segunda-feira, dia 13 de julho, às 19:00
onde: Livraria da 7Letras (Visconde de Pirajá 570, 320 sobreloja)
o que: Lançamento do Casa (e também do Inclusive, aliás) e d’Os ilhados do Ismar, ao mesmo tempo, lá. Toma banho depois do Sem censura e vem.

Casa na Modo

Hoje na Modo De Usar & Co. tem eu andando de bike em Kyoto, em direção aos macaquinhos de Arashiyama, três poemas inéditos do Casa e um vídeo que o Victor Heringer fez pra canção “A Mutante” do meu disco Praia. Não sei mais o que eu poderia querer nessa segunda-feira. Agradecimentos ao querido Ricardo Domeneck.

Clica aqui que chega até lá.

As duas

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Segundo consta nos diários, há dois anos penso em fazer algo sobre a Trish Keenan – cantora do Broadcast falecida em 2011 em decorrência do H1N1 – seja um livro, um disco, um livro sobre um disco, enfim. Há mais de uma década que ela exerce um grande fascínio sobre mim. A voz doce e maldita, muito de acordo com as sereias do Prufrock de Eliot, a morte muito precoce, o tema da canção inacabada “The song before the song comes out”.

No outro lado do mesmo tipo de fascínio, segundo consta nos diários, há seis meses penso em fazer algo sobre a Laura Riding – poeta norte-americana que nasceu em 1901 e atravessou o século XX – seja um livro, um disco, um disco sobre um livro, enfim. Seus poemas incontornáveis, seu propósito sincero em largar a poesia e começar uma pesquisa pela verdade pelos caminhos da linguagem, sua tentativa tonta de suicídio, sua longevidade, sua filosofia muito particular.

Acontece que fiz as duas coisas numa coisa só: escrevi um livro de dezesseis textos sobre essas duas e sobre mim. Chama-se “As duas” e será lançado amanhã junto com outros pequenos livros pela coleção Megamíni da sempre presente 7Letras. Todas as informações estão no convite acima. Venha. Venha depressa porque só farão 50 de cada um.

Casa e Praia na Pessoa

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Uma das maiores alegrias da literatura pós-diluviana em que vivemos é a coluna Milímetros escrita pelo Victor Heringer, o nosso Vituxo, na Revista Pessoa (que é um oásis maior onde mora esta e outras colunas). Victor resolveu me entrevistar e falamos sobre o Casa e o Praia, sobre a casa e a praia, sobre as ilhas, sobre os amigos, sobre ruínas e memórias. Foi uma honra, ainda é uma honra e será uma honra (enquanto houver internet) estar lá na Milímetros. Vale ler todas as crônicas do Heringer e também ler as entrevistas (muito melhores do que a minha) que ele fez com Matilde Campilho, Ismar Tirelli Neto e Marília Garcia (uma tríade imbatível). Essa foto que ilustra a entrevista é do Martin Scian. E aqui está o link para a leitura.

Para ouvir uma canção

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Ontem o debate entre Paulo da Costa e Negro Leo no ciclo “Para Ouvir Uma Canção: Voz e Tecnologia” foi essencial pra entender o que se passa com a canção, no Brasil, agora em 2014. Hoje, eu e meu queridíssimo Miguel Jost falaremos, a princípio, sobre canção e novas tecnologias. É pra chegar e discordar ou concordar com a gente. Tá uma uva esse baile. E ainda, quinta e sexta vai (e vão) rolar: Leoni, Marcus Preto, Antonio Carlos Miguel, Fred Coelho, Juçara Marçal e Bernardo Oliveira. Quem for, vai.

Mais informações no Facebook e no site do evento.

Casa na Risco

Nesse sábado nublado de setembro, dois poemas do Casa sairam na página Risco do caderno Prosa & Verso do Globo. Carlito Azevedo, poeta e editor, me colocou, honrosamente, lado a lado com Samuel Beckett (traduzido pelo Marcos Siscar) e com Gais Ama, artista plástico que não conhecia até agora. Abaixo, o texto de Carlito sobre tudo isso e os dois poemas do livro que lá estão.

“Em 1889, Jules Renard já anotava em seu diário que é desesperador ler tudo e não reter nada, ter a consciência de que tudo escapa aos nossos esforços, que aqui e ali apenas alguns fiapos permanecem, frágeis, “como os flocos de fumaça indicando que um trem passou”. Mas será mesmo que é apenas do que lemos que não retemos nada? Da poesia um pouco mais? Menos? De tudo fica um pouco, e é esse pouco que interessa? Camilo Pessanha já reclamava: “Imagens que passais pela retina / dos meus olhos, por que não vos fixais? / Que passais como água cristalina / por uma fonte para nunca mais!”. Soltavam fumaça o trem submarino de Chihiro, o anfibiocóptero de David? Loucura querer mais? Querer reter, ocupar o lado da cama de onde partiu, agora-agora, o trem de outra história, imensa como a Rússia? Livros, cantos, conversas, será que fazem mais sentido do que o zunido dentro da caixa de abelhas que uma bicicleta leva para dar voltas à Lagoa? E isso lá fora, é o barulho de um trem ou são apenas, brincando, crianças no ocaso? O espaço entre dois é a cicatriz ou fronteira? Reza a lenda que Samuel Beckett se casou com a mulher que o encontrou esfaqueado, no chão. Cicatriz, risco. Loucura isto? Tal como a Tamara Kamenszain do livro “Solos y solas”, Mariano Marovatto se quer “okupa” de sua própria casa. Em Sacalina, o oriente ao oriente do oriente? Fronteira entre dois mundos medida por um bater de pálpebras. Loucura isto? Visto que? Dado que? Você morreria por? Iria tão longe? Acolá.”

***

O passado, uma caixinha cheia
de abelhas. A caixinha zune na
garupa como um telefone. A vida
inteira voltada para o bem. Nada
pode deter os delinquentes. Daqui
a alguns meses tudo estará da mesma
forma: robótico. Enquanto voltamos,
em torno da lagoa pneus e céu baixos,
avistamos por um instante a garça
pousada. Quieta, longilínea. Não há
como detê-la. As abelhas calaram-se.

O pátio está coberto por jacas
maduras. Gomos amarelos revelam
as reentrâncias das solas dos
sapatos. As últimas abelhas agonizam.

A casa nova estará cheia de raízes
preparadas para bombardeios.
Os dois irmãos permanecem na janela.
Há uma profunda cicatriz entre eles.

***

Você acaba de sair
e preciso ocupar
sua metade na cama
A cama é minha, estou morto
há indícios de que você seja muito russa
e da Rússia eu só conheço a Sacalina
e da Rússia eu só conheço a Lapônia
estou morto, seus olhos são gigantes
você está em preto e branco
você está falando coisas que não entendo
você está no século passado
seus olhos são gigantes, vivos ou mortos
eu ocupo a cama inteira
você acaba de sair
você é imensa,
você é um trem
eu atravesso a Rússia, eu salto, eu erro
um terceiro andar imenso
da Sacalina para a Lapônia
Há uma gare, você de vestido
há uma gare, você dá boas-vindas
há uma gare, talvez eu não salte
há uma gare, sua boca está viva

Sobre a Praia

Dia 28 de agosto do ano passado – de acordo com o diário das gravações (sim, um diário), depois de um milhão de ponderações acerca do título envolvendo Ismar Tirelli Neto, Alice Sant’Anna e Rodrigo Alcón Quintanilha – foi o dia do batismo do disco: Praia. De lá pra cá, do seu jeito estranho e denso, Praia foi tomando espaço, ganhando ouvintes e grandes amigos. Além de Victor Heringer, Clara Cavour e Carolina Bianchi, responsáveis pelos videoclipes do disco, parte importantíssima foram os que carinhosamente ouviram e escreveram sobre ele. Aqui, nesse post, tento reunir os textos de maior fôlego e que mais me ensinaram sobre o que eu e Ricardo Dias Gomes (com Martin Scian) gestamos entre os dias 4 de abril e 13 de setembro de 2013: respectivamente data do primeiro dia de gravação, ainda sem Ricardo, e data do término da última masterização feita pelo Martin.

Ismar Tirelli Neto, o nosso gênio incontornável, escreveu o release “oficial” do disco.

Maurício Pacheco, co-bróder musical e televisivo, escreveu de surpresa esse texto lindo antes do disco sair.

Lucas Matos, um dos melhores leitores de poesia que conheço, leu o disco no blog da Revista Bliss.

Mauro Ferreira escreveu uma crítica que gostei muito no seu famoso Notas Musicais.

Leonardo Davino, um dos maiores especialistas da canção brasileira, escreveu sobre “Vidraça”, música minha e de Romulo Fróes que está no disco.

Web Mota não só maravilhosamente escreveu, como também disponibilizou o disco para download na sua Musicoteca.

Fred Coelho, last but not least, uma das minhas antenas do século XXI, escreveu coisas tão íntimas sobre o disco e sobre mim que chorei. Mesmo.

Amor imenso a todos esses nomes que, desde então, fazem parte do Praia.

Julho

Este é o centésimo post desse blog. Calhou de ser um post sobre julho, um mês que aconteceu um bocado de coisa aqui pelo .org e que o próprio .org não deu conta. Apesar do mundo ter acabado todos os dias – nossa estranha rotina de tragédias pós-diluvianas – aconteceu também que:

1) Ornitorrinco: Fui admitido como colunista fixo do Ornitorrinco, o site cheio de mentes e amigos brilhantes, e povoado, como ele mesmo diz, de “histórias, ideias e pensamentos contemporâneos”. Portanto, toda semana, acho, uma crônica nova minha pintará por lá. O link tá aqui ou então nessa coluna à direita do seu vídeo.

2) Praia ao vivo: junto com Cairê Rego e Felipe Fernandes, o Praia já teve duas aparições ao vivo e promete mais algumas até o final do ano. A última delas foi um show na Comuna, aqui no Rio, muito do especial. A primeira foi televisionada diretamente do estúdio Maravilha 8 e dá pra ver aqui:

3) Praia ao vivo nº2: durante essa estranhíssima Copa do Mundo Fifa fui convidado pelo programa Faro MPB da querida Fabiane Pereira para falar sobre o meu disco. Meu amigo retumbante, Botika, estava lá também comigo, falando do Picolé da Cabeça, que é o disco dele. Dá pra ouvir clicando aqui e escrevendo nos campos em branco: “faro mpb”, “junho” e “mariano”.

4) Can The Children Come Out To Play: nosso clipe do coração (nosso porque ele é meu e das amadas e gênias Clara Cavour e Carolina Bianchi) está agora no YouTube também. Portanto, se você deseja revê-lo, mostrá-lo para um amiguinho novo (ou antigo), compartilhá-lo, execrá-lo, etc, eis o link mais massa para fazê-lo: