Monthly Archives: maio 2010

Orelha do Andityas

Acaba de sair pela 7Letras, Auroras Consurgem, de Andityas Soares de Moura. Descobri o Andityas por causa da minha dissertação de mestrado e de tanto lê-lo, vejam só, acabei fazendo a orelha do Auroras, que além de ser o mais novo é o mais legal dos livros dele, na minha parcial e humilde opinião. E prestenção: em julho ele será uma criança insuportável! Mas por enquanto, leia a orelha abaixo e compre o livro aqui!

As auroras de Andityas consurgem para libertar aquilo que Nietzsche – outro interlocutor de auroras – chamou de “educação clássica”. Tanto o poeta mineiro como o filósofo alemão foram treinados nas virtudes antigas, e ambos foram impelidos, ao longo de suas carreiras, a livrar-se de tal estigma. Andityas assume em Auroras Consurgem seu papel de “vilão da vila” (em “Crepúsculo”), de “traidor do Messias” (“D’o Evangelho de Judas”). Logo ele, que cultivou e conheceu por si e só, neste século XXI, todos os poetas latinos, os trovadores provençais e a gramática galega, como nenhum outro poeta da novíssima geração. Toda esta educação, muito bem executada nos seus livros anteriores Lentus in umbra (2001), OS enCANTOS (2003) e FOMEFORTE (2005), agora dá lugar a “Língua de fogo do não”, título do poema-manifesto, espécie de “Procura da poesia” de Drummond, às avessas:

“O poema não produz dividendos. Não distribui lucros. Não faz dormir melhor. O poema não sorri nas campanhas eleitorais. / O poema não gosta de telenovela e nem está preocupado em como estacionar no shopping-center (…) Infame ter de se concentrar para sentir o pejo de um mundo sem poesia”.

Uma overdose necessária de ceticismo, Auroras é um desconforto na mesa de jantar do paideuma do próprio Andityas. Em “Poema para ser lido na ceia de natal”, T.S. Eliot é cutucado com vara curta logo no primeiro verso: “dezembro é o mais cruel dos meses”. Em “Lembranças de um poeta argentino”, afirma sobre a cidade em ruínas que não quer “ser Jorge Luis Borges” para poder dizer palavras “limpas e claras”. Andityas está de elogios a seus mestres. Enfrenta, discute, não consente. Está farto do comedimento, tem o ímpeto de Zaratustra, puxa o tapete vermelho da poesia intemporal, e por isso mesmo, mostra aqui seus melhores versos, na manhã dessa nova década de poesia.

Crianças Insuportáveis, volume 2

criancas-insuportaveis-2

Sobre o show, por Ismar Tirelli Neto

Bom, de todos os resgates possíveis, vai o Marovatto e opta justo pelo gracioso: penso eu, semanas depois, tentando refazer o gig no Espaço Multifoco; o entusiasmo dos amigos, a leveza repassando, qualquer coisa de ondeante na voz das meninas (que saudade), esteando o booming tenor Marováttico, que arrebenta por sobre. Como se sabe, ele mora a quinze chineladas da praia. E essa proximidade estava bem lá, naquela noite, na Lapa. Também na sutilíssima malha das cordas, a mestria e suavidade do baixo, e por cima o teclado operando nostalgia frente aos olhos de todos; de todos os resgates possíveis, vai o Marovatto e escolhe as tardes de sol brando, os passeios pela Orla, o manejo da palavra mínima que tanto remete à bossa nova. Sim, estamos no território do amor, do sorriso, da (pequena) flor – estamos no domínio daquela mesma elegância des-esforçada, que faz o instrumental mais intricado parecer inevitável, necessário mesmo ao andamento da coisa, algo que somente se atualiza e pronto, existe, como se já existisse desde sempre. Porque já não é mais uma questão de mostrar serviço, certo, malta? É outra coisa – é produzir beleza – uma oferta “simples”, mas que nos escapa um pouco em termos geracionais. O manejo da palavra mínima é também o manejo da palavra exata, cinzelada. Os instrumentos se bicam o tempo inteiro, procurando brechas onde soar um no caminho do outro, justamente para criar essa ausência de complicação. Você leva o seu bem para passear na orla e (espero) não pensa em como se conjugaram os elementos da paisagem. Não, ela está lá. Paisando. Inteira como as canções.

É preciso fazer por onde e aproveitar.