Durante muito tempo, aliás, desde pequeno, sete oito anos, eu sonhava com a Nova Caledônia. Ficava, com meu irmão, desenhando as bandeiras de todos os países, decorando as capitais da Europa, Américas, Ásia, África e Oceania. Porém, me intrigava muito aquela porção de terra perto da Austrália e da nova Zelândia, chamada Nova Caledônia, cujas informações eram bastante precárias no Atlas. Fiquei sabendo através de meu pai que se tratava de um protetorado francês na Oceania. Ficava frustrado, pois queria muito descobrir como se desenhava sua bandeira. Como não sabia, inventava. A melhor que desenhei era uma bem laranja que tinha uma pequena bandeira francesa no canto superior esquerdo, imitando o modelo australiano e sua bandeira britânica. Inventei também, nome de presidente, capital, moeda corrente – essas informações básicas sobre países, disponibilizadas no Atlas – que hoje evidentemente não recordo mais.
O tempo passou e o mistério neocaledônio ficou adormecido na minha cabeça até poucos anos atrás quando o Google Earth o despertou novamente. Lembro que passei duas madrugadas inteiras “sobrevoando” Nouméa e todos os recantos das ilhas, ouvindo as Landscapes do John Cage e compondo, vagarosamente esses três pequenos poemas, que foram batizados de Caledônia Cage.
Os poemas publiquei em 2007 em papel junto com outro poema, O Sonho de Diana Valentina, com a ajuda do Felipe Kaizer e do Leon Vilhena. Depois, a Flora Bonfanti traduziu por francês e foi parar numa revista eletrônica de Paris, chamada Lampe-tempête. Ainda no mesmo ano, foi publicado novamente na revista de ciência e poesia Geologia para Poetas, graças a Maria Dolores Wanderley.
Não satisfeito, ainda fiz uma faixa sonora (que termo é esse?) com Bruna Beber recitando os poemas comigo, Ricardo Dias Gomes tocando teclado e o mar do Leblon batendo no fundo. O áudio dessa experiência acabou virando um vídeo-poema do Leon Vilhena e acabou sendo finalista (ou quase isso) da Fliporto do ano passado.
Depois de tanta Nova Caledônia nessa vida, resolvi escrever uma carta para a própria Nova Caledônia, dizendo que amo muito ela. Fiz um texto bem bonito, contando tudo isso aqui, traduzi para o francês (não eu, mas uma tradutora) e fiquei um bom tempo procurando leitores possíveis neocaledônios na internet: escritores, professores, músicos, artistas, etc, num total de 25 pessoas possivelmente receptíveis e sensíveis ao meu e-mail. Depois de muito hesitar, meses e meses com o texto em francês pronto no meu computador, enviei!
Passou um, dois, três dias e no quarto chegou uma resposta de um romancista que dizia mais ou menos assim: “Olá sou francês, não entendo muito música, nem curto poesia. Meu lance é romance noir. Mas de qualquer forma boa sorte!” Claro que não foi a seco assim, teve toda a decoração de palavras em francês que fez do e-mail do cara algo super polido, oficial e importante. E foi tudo. Essa foi a única resposta. Ao longo dos dias vi meu sonho de criança de ser recebido como um rei naquela ilha da Oceania, sendo engolido tsunami (que bela metáfora) abaixo. E lá se foi mais uma paixão platônica. Esse foi o meu ano da França no Brasil, so far. Paris que me aguarde.
Quero você anti-hiperbólica
mamífero xenartro da família
dos bradipodídeos
numa noite de braços abertos
sem maiores estardalhaços
na finitude iminente, não menos fecunda
que a nossa idéia romântica
de infinito.
Quase seis horas da manhã lá fora chove
Cassavetes talvez traga os pôneis
e a ovelha para dentro desta casa
que não possui um gato que se preze
vai entrar pela porta com sobrancelhas de coringa
olhos faiscantes chapéu Ana C. e bafo de martini
dirá que somos uma família unida feliz que o amor é um eterno-fluxo
você deve estar agora suada na Itália
pensando passeatas na França
escrevendo cartões postais para avós
que na verdade sempre dizem outra coisa
O aro rompido da bike, minimalismo
dervixe riponga do posto 9
lembrança daquele tempo em que era
o sufi pateta de Ipanema.
Terry Riley no auge da
gamemania (99 vidas em
Altered Beast) diria que peixe
não pulula, que marulho é o caralho
O sol sim é bom pra danar
trocando o dia de trabalho pelo suor na praia e
lá vem Mainardi pedalando na mão contrária de novo.