Category Archives: Teoricamente falando

Lado 7 número 2 na Travessa do Leblon

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Na bela revista Lado 7 o meu “Obrigado, Sr. Miyamoto!” se faz presente. Dividido em nove partes, antes de sua publicação, o poema foi submetido à leitura atenta e afetiva de André Capilé. Mesmo nascido em Barra Mansa o poeta-crítico banhou-se tanto nas águas de Juiz de Fora que é considerado por onde passa como um daqueles da terra que fez brotar um Murilo Mendes ou Pedro Nava. Segue abaixo o e-mail escrito por Capilé com suas belas considerações acerca do “Sr. Miyamoto”, invejadas por quem não foi ainda submetido pela leitura falastrona sincera do pseudo juiz forano mas verdadeiro leitor de poesia. O poema mesmo só da pra ler na revista. Como se verá, não acatei nenhuma das sugestões, mais por falta de tempo do que por preguiça. Me perdoe, André. Mas faço questão de registrá-las aqui.

E você leitor, faça o favor de comparecer na Livraria da Travessa do Shopping Leblon às 19hs na terça-feira, 25 de outubro e adquirir o seu bem nutrido exemplar.

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Mariano,
acabei de treler o trelelê do Myamoto (será assim a grafia? ou será Miamoto? sei-me-lá!).

Impressões primeiras, de marcha segunda – pra aguentar ladeira, sabe como é…:
Se gostei? Sim, gostei deveras, mais que a dor que Verinha sente, sem dúvida. Não pela verdade, mas por toda sorte, oxalá!, de ficção imaginada naquelas cenículas, nada cínicas, mas dobradas, de borda a borda, e eivadas de ironia branda, em nada solene, tão característica dos cariocas (os bons-maus, não os mau-maus e seus enfeites de melenas, ora, melecas!). Parar com esse tipo de raciocínio tão raciorrocinante e falar ao claro, no clarão: Se gostei? Caralho! Óbvio que sim. O senão? Picas voadoras! é pouco, tem de tudo para um quero mais de pequenas variações em abismo, explico, afinal, como li.

!) jogo de cenas. lembra, muito, quadrinhos – mais, muito mais que cinema. Pela concisão das imagens propostas, pela justeza das cenas, pela cartunização ao enquadrar personagens em seus flagrantes. Lembro um videoclipe do Green Day: Good Riddance (Time Of Your Life); nem sei o qto te desagrada a referência.

!!) a cena 7 (vou chamar disso) é um primor. a inversão cinética que vc propõe, um achado: “‘ele passou rápido’, diz um. ‘Nem me fale’, responde o outro”.

!!!) o não-acontecimento de cada evento, a expectativa por uma solução de cena… faz todo sentido quando “vê-se” o barco baleeiro ancorado.

são pequenos exemplos para o que vc já sabe. Agora, o vinagre – no caso aqui só tempeiro, nada que desabone o conjunto… mas uma coisa rentável nesses módulos, que percebo.
o texto é muito potente como gerador de pequenas potências micro-narráveis. cada móculo, em si, comporta novos módulos de execução… não como música – ou ritornelo, se preferir; mas como camadas mesmo… que podem se superpor, criadas e recriadas partindo desse núcleo duro. tudo em nove novos movimentos. exemplifico:

a) da cena 1 um módulo possível e de sugestão interessante seria escapar, como um braço novo, cenas desse local de trabalho;
b) da cena 2 de novo um módulo de espaço que pode ser interessante montar: o dos velhos idosos sendo desenhados: por quem? por quê? estão nus? homens? muçlheres?
c) da cena 3 re-de novo outro módulo de espaço: o hotel sendo lavado.
d) da cena 4 os componentes do coral, seriam um excelente módulo, inaugurando retratos-relâmpago (pra citar murilão, o nosso murilão).
e) da cena 5 um módulo pra brincar de linguagem: criar tipos de danças e frases emblemáticas para velhos e garotas.
f) da cena 6 temos dois espaços, mas já há espacialidade demais. o que fazer? penso: o sonho da senhora dormindo. frases soltas do livro lido por obrigação (texto castiço, chato, empolado) e, claro, a delícia dos pensamentos-bebês!
g) da cena 7 claro: as três anedotas do plantador de alface. anedotas mudas de um fotógrafo para o outro. anedotas que o girassol contaria para o trilho do trem sobre sua inutilidade.
h) da cena 8 conversas de balcão. flagrantes da vida média. ulisseido, estilo joyce, mas sem aquele barroquismo, claro.
i) da cena 9 ah… tá bom. vc acha aí. já sugeri demais… mas esse barco baleeiro…. hummmmmm

é isso, meu caríssimo. acho que rende, rende mais, sempre.
agora é esperar.

abraço forte
abraço, menos forte, em sua moça [elas têm essas fragilidades]

e cuide-se. nos vemos no durante.

seu e sempre
andré

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Bienal do Livro

BIENAL-DO-LIVRO-RIO

Hoje, sexta-feira 2 de setembro, às 21:30 eu e Masé Lemos estaremos no Espaço Aberto Literatura da Globo News especial Bienal do Livro falando sobre poesia com Claufe Rodrigues. Tem reprise às 01:30 da manhã e no sábado às 08:30 e 16:30.

Depois na terça-feira, dia 06, às 19hs estaremos novamente eu, Masé, Alice Sant’Anna, Laura Erber, Nicolas Behr e Claufe Rodrigues, no Café Literário da Bienal falando a poesia. A sinopse da mesa, de acordo com o site da Bienal, é: “Jovens e veteranos poetas celebram o encanto pela palavra dita, mantendo viva a forte tradição carioca que evoluiu da declamação romântica e parnasiana à moderna leitura em bares e lançamentos até a pós-moderna performance no palco e na web.”

Todos devidamente convidados!

Symbiopsychotaxiplasm take one

symbio

Sou o pior dos cinéfilos. Conheço nem 20% do que filmaram Godard, Fellini, Truffaut, Bresson, Renoir, Pasolini, Visconti, Scola, Antonioni e os outros menos cotados da turminha da Nouvelle Vague e da Cinecittà. Em Hollywood também eu sou péssimo, mas não vou citar aqui o que não assisti pra você não abandonar esse blog por desprezo a minha pessoa. Eu curto, sim, muito, umas coisas específicas que acabo pescando aqui e ali. Dentre elas, coisas importantíssimas como o maior de todos os diretores americanos, John Cassavetes e o japonês Hiroshi Teshigahara, que era muito amigo do compositor Toru Takemitsu de quem eu sou fã há mais tempo. Também curti muito os primeiros musicais do cinema sonoro de Lubitsch e os filmes do iuguslavo (muito) pancada, Dusan Makavejev. É assim minha relação caseira com o cinema, fico provando estes pratos exóticos, mas o feijão com arroz eu não comi.

Recentemente, numa busca por mais exotismos cinematográficos, comprei no saldão de DVDs de uma falecida livraria da comarca do Leblon, um filme chamado Symbiopsychotaxiplasm, de William Greaves. Li a orelha e levei, da mesma forma que se compra um livro. Filme americano da década de 60. Beleza. Cheguei em casa e botei pra tocar. Devo dizer que o impacto foi tão forte quanto aquela primeira vez que assisti Opening night do Cassavetes no Estação Botafogo. Que grande filme, meus amiguinhos. Nos dias subseqüentes perguntei pra todos os cineastas a mão se sabiam da existência do Symbiopsychotaxiplasm. Inacreditavelmente ninguém sabia. Joguei o nome no tuíter e só o grande Ismar Tirelli Neto pescou. Dias mais tarde o nobre poeta me agradeceu por email pela graça alcançada ao assistir a película (da mesma forma que fez, meses antes, quando disse para ele assistir um curta metragem do Teshigahara; Ismar é uma unanimidade).

Pois bem, da mesma forma que Maomé escreveu, mesmo que analfabeto, e pregou o Alcorão Oriente Médio afora, imbuí-me da missão de espalhar essa semente da sétima arte pelos rincões do Brasil – sowing the seeds of love, diriam aqueles caras. E graças a Alá, todo poderoso, o Take one do filme (sim, existe uma continuação) está totalmente disponível no YouTube, e eu, embedo as oito partes abaixo para você poder assistir.

O filme é de 1968, o ano mais emblemático da segunda metade do século XX. E tudo o que aconteceu em 1968 foi/é/(será?) obrigatoriamente lido na clave do “revolucionário”. Mas, diferentemente do que acontecia por aqui (AI-5) e na Europa (e sua primavera inesquecível), – locais onde a questão nacional e o engajamento político eram assuntos impregnados em toda expressão artística – neste filme, produzido na América do Norte e filmado no Central Park, não existe nada que remeta a um pano de fundo sócio-ideológico. Talvez, vá lá, a Guerra do Vietnã, mas somente se aplicarmos a equação russa de que “não há conteúdo revolucionário sem forma revolucionária”. A narrativa e a montagem do filme, de fato perturbadoras para 1968, eram “revolucionárias” mas sem amarras, sem questões ou preconceitos adaptados de outras áreas do conhecimento humano que não a artística. A liberdade formal (não confundir liberdade com superficialidade) desta única obra prima de William Greaves é o que garante a película a sua total originalidade. Tudo em nome da sétima arte, apenas. Uma aula para nós, de 2011, que vivemos essa revolução libertária artística às avessas. Bom filme.

What’s up, doc?

“The rabbit-hole went straight on like a tunnel for some way, and then dipped suddenly down, so suddenly that Alice had not a moment to think about stopping herself before she found herself falling down a very deep well.” (Lewis Carroll, Alice’s Adventures in Wonderland)

Convido-vos a fazerem o mesmo nestes dois mundos de outros dois Coelhos distintos. Distintos pensadores, distintos amigos, distintos Coelhos.

Eduardo Coelho, Autores e livros
Frederico Coelho, Objeto sim objeto não

A cena

Fiquei muito feliz em aparecer 3×4 na primeira página do Segundo Caderno do Globo junto com tantos amigos e pessoas incríveis que tanto admiro. A discussão levantada pelo Luiz Fernando Vianna é totalmente relevante, dada a profusão de cantores, cantoras, bandas e compositores extremamente talentosos surgidos nos últimos cinco-dez anos que representam – e representarão para as futuras gerações – a música brasileira do início do século XXI.
Acontece que, ao abrir a segunda folha do caderno, me deparei com as minhas declarações. Jesus, Mariano, que mau humor é esse? “Aqui acabou a música em processo”?! Meu filho, o que é “música em processo”? Mal lançou um disco e já está cantando de galo? Muitas coisas podem ter acabado no Rio de Janeiro, mas música (e em processo) temos de sobra. Logicamente, é uma missão complicada para o jornalista sintetizar um papo que rendeu dois telefonemas, mais de meia hora de conversa, num pequeno parágrafo. Acredito que o Luiz Fernando tenha conversado o mesmo tanto de tempo com os outros entrevistados da matéria e, se colocasse na íntegra o que cada uma falou, num mundo ideal (na internet?), o Segundo Caderno inteiro estaria tomado pela discussão.
O problema é que me senti um tanto bipolar e xenófobo da minha própria cidade perante a minha taquigrafada declaração, que não condiz com o meu trabalho na música. Lê-se aí meu disco, em que participam 32 músicos da cena carioca – a maioria deles presente na matéria –,e o “Segue o Som”, programa de TV onde todos os artistas retratados na primeira página (e também os citados ao longo do texto), sem exceção, foram entrevistados ou devidamente apresentados por mim e pelo Maurício. Concordo 100% com o Romulo Fróes, que disse que “a cena atual é uma das melhores da história da música brasileira”. E acho a mesmíssima coisa da cena da poesia atual. E não me engano. Sejam nos bons e nos maus talentos. A música evidentemente não acabou, ao contrário, ela está só começando pra mim e pra toda essa geração. Mas, estruturalmente, estamos longe do environment ideal necessário para bem nutrir todos esses talentos.

Falta de tudo na música do Rio? Sobra talento: Do Amor, Tono, Rabotinik, Letuce, Jonas, Qinho, Os Outros, Mario Maria, Rafael Cosme, André Carvalho, Silvia, Dimitri, pra falar dos mais próximos de mim nesse momento. Só com esses nomes temos um festival muito mais edificante do que o Rock In Rio 4. Sem falar nos mestres Domenico, Moreno, Kassin, Pedro, Rubinho, Löis, Hermanos e a Orquestra, norteadores da música carioca da década que acabou de passar. O que entristece é o potencial desperdiçado que o Rio de Janeiro tem de acolher bem as suas próprias novidades. O Do Amor, por exemplo, tocou em quase todos os estados do Brasil nos últimos dois anos, participou de todos os festivais relevantes e, como disse o Luiz, faz quatro shows no Rio por ano.
Citando novamente o Romulo Fróes, “o Brasil não expande, vai ficando cada vez mais em São Paulo”. Em matéria de infra-estrutura, São Paulo é incontestável e imbatível. Mesmo com seus problemas. E, naturalmente, quando há um mínimo de infra, é gerada uma reflexão, um pensamento organizado sobre o que está acontecendo. E isso não é novo por lá vai fazer 100 anos. Vide a Semana de 22, o projeto Concretista, o pensamento musical de Tatit e Wisnik e os argumentos pertinentes do Romulo. A praia carioca é a sua potência, sim. Mas não basta a aparência, a paisagem, o Corcovado, o filme da ararinha azul em 3D, as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Não adianta construir uma utopia que, como já disse Caetano, a gente sabe que vai virar (e já é) ruína.
Fico feliz em ver, por exemplo, um festival de pequeno porte como o Festival Mundo em João Pessoa, onde há uma pequena e suficiente estrutura para receber e pagar os artistas e onde aparece um público interessado (e interessante). O Rio de Janeiro poderia fazer 10 festivais como esse por ano, movimentando os novos artistas, angariando público, gerando discussão e até lucro. Mas é mais rentável produzir um mega festival com um patrocínio milionário que, com certa razão, prefere ter sua marca associada a grandes nomes da música já estourados no mercado.
O Rio era o berço das grandes gravadoras e por isso havia um modus operandi musical muito bem resolvido por aqui nos anos 80 e 90. Acabaram-se as grandes gravadoras, é preciso agora botar a mão na massa e a cabecinha pra funcionar. Existem mil maneiras de movimentar dinheiro no novo mundo da música. Cada dia surge uma nova ideia na internet. É preciso potencializar toda essa vitrine que o Rio de Janeiro é em pensamento cultural produtivo. Exemplos de empreendedores musicais, selos e sites cariocas não faltam. A cada programa do “Segue o Som” a gente apresenta alguém ou alguma proposta nova que esteja rolando. Talvez o primeiro passo seja simplesmente virar os holofotes para a cena do Rio e ouvir o que ela tem a dizer. Não é?

Aquele amor nem me escute

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Essa semana que passou gastei o verbo pra falar d’Aquele amor nem me fale. Domingo foi no Geleia Moderna, ao vivo na Roquette-Pinto aqui do Rio, comandado pelo fabuloso Jorge Lz. Terça fui apresentado formalmente e finalmente a Belo Horizonte no programa Viamundo, da Radio Inconfidência, sob a batuta de Daniella Zupo e Flávio Henrique. O bis-bônus vai rolar no domingo dia 3 de abril na Cultura Brasil de São Paulo, sob a regência de Solano Ribeiro. Oiça-me:

Geleia Moderna, 20 de março
Viamundo, 22 de março
Nova Música do Brasil, só dia 3 de abril

Das Racist

Não foi o umbigo de Sufjan Stevens (The Age of The Adz) ou a megalomania de Janelle Monaé (The ArchAndroid) o grande disco da música norte-americana do ano passado. Foram Shut Up, Dude e Sit Down, Man, dois discos de um mesmo trio de rap formado no Brooklin chamado Das Racist. Eu não tenho a menor tarimba pra falar de hip-hop, tá na cara, mas muitas vezes me parece – daqui da minha visão de quem fez um disquinho de bossa nova no Leblon – que o discurso do rap não saiu daquela antiga querela da juventude engajada brasileira dos anos 60: ou se ataca o sistema destilando nos versos a crueza da “vida real” ou se enaltece o filet mignon provido pelo sistema (mulheres, armas, carros, drogas, mansões, iates, 100 mil dólares, como diria o Leôncio naquele desenho do Pica Pau).

O Das Racist já começa a léguas de distância do resto porque não tem nada com um grupo ou com outro. Eles são “diferentes”. Vejamos o nome de cada um dos integrantes: Victor Vazquez (ou Kool AD), Himanshu Suri (ou Heems) e Ashok Kondabolu (ou Dap). A família de ninguém ali tem relação com os primeiros brancos americanos que construíram tão belo país, muito menos com os negros escravizados por estes brancos americanos. Eles são filhos de descentes cubanos (Che!) e indianos (Gandhi!) que foram tentar a vida em Nova York, ainda a cidade mais plural do mundo. Como diria o Cacaso “NY é tão cosmopolita, tão sem raízes que o sujeito se sente de onde veio”. Mas a afirmação do discurso deles é justamente ironizando essa falta de raízes americanas do grupo. Embora somente uma cidade como Nova York pudesse gerar um grupo desse feiti(ç)o, a peleja do trio é contra o preconceito do mundo hip-hop norte-americano ainda contaminado com a bipolaridade ideológica. Vejamos esse incrível clipe de Who’s That Brown?, uma homenagem a todos que jogavam Double Dragon antes de ir pra escola:

Brown, pra quem não sabe (eu não sabia), é uma gíria pejorativa pra quem não é branco nem negro, ou seja, um vira-lata sem pedigree. Aqui no Brasil mulato é elogio carnavalizante, nós sabemos. Mas lá o Das Racist são a minoria brown numa maioria branca ou negra. As referências obscuras e pessoais da letra da música em questão são desvendadas por este incrível site chamado Rap Genius. Clica nos versos em laranja de Who’s That Brown? e descubra as entrelinhas.

Em novembro passado o Das Racist, por falta de documentos, não conseguiu entrar na Inglaterra para se apresentar. No blog eles contam como foi ficar oito horas detidos no aeroporto britânico juntamente com outros vira-latas do mundo: “We were there with two Iranian men, a Brazilian woman who spoke only Arabic and an Indian man with a student visa who couldn’t speak a lick of English. Our people!” A mistura é sempre marginal.

Mais genialidades sobre esse tema em Chicken and Meat

e em Ek Shaneesh.

E que tudo isso tem a ver com aquele livro do Fred que não me sai da cabeça, tem. Marginália até o talo. Sem falar nessa abundância de sarcasmo e referências pessoais, tão caros a poesia de agora no Brasil, onde meninos vão com O’Hara e meninas com Adília. Aliás um Rap Genius com “lyrics and meaning” dos poemas da galera é uma ideia, hein? Papo prum próximo post.

Eu, brasileiro, confesso

fred

Acabei de ler na tarde de ontem esta fabulosidade escrita por Frederico Coelho. De Deus e o Diabo até a Navilouca, o Fred me explicou tudo como aconteceu, livre da parcialidade de ter estado lá naqueles anos 60 e 70, o que ocorre sempre nos outros textos sobre o mesmo assunto. Bem da verdade queria que ele continuasse me explicando como foi que tudo aconteceu até semana passada, mas não teria terminado o livro ontem. Algumas coisas importantes tirei dali, fora as dezenas de anotações para o meu doutorado sobre Cacaso (um falso-marginal, diga-se de passagem). Vamos a elas. Mas nota (meu) bem que o que listarei aqui não está necessariamente escrito no livro do Fred. Vamos livrar as linhas dele da minha ignorância.

- CPC, engajamento, “fora da arte política não há arte popular” e toda esse processo burocrático de ter que justificar sua obra dentro de uma ideologia marxista paternalista com o povo, realmente putaquepariu. Thiago de Mello, Moacyr Félix viraram nota de pé de página. Gullar escorregou no quiabo, mas limpou-se no Poema Sujo, né?

- Hélio Oiticica é o cara. Aliás, a dobradinha Rio – Salvador sempre funcionou muito bem nas artes. Desde Dorival in Rio, passando por HO e os baianos, Marisa e o Brown, mais recente Pedro Sá e Ronei Jorge. O Rio só não se deu bem com o axé. Talvez o ritmo baiano não fosse tão inclusivo ou talvez fosse muito atacado pelos defensores do rock carioca.

- A bobeira que deu toda a Tropicália e, consequentemente, a Marginália de evitar o Mário de Andrade em prol do Oswald de Andrade. Culpemos a esquerda e a bipolaridade do mundo. De qualquer forma deu bobeira; como terceira via deveriam incluir Mário. Culpemos os irmãos Campos. Logo Mário, que  talvez tivesse menos projetos pro Brasil do que Glauber Rocha, logo Mário que era transviado até em piada machista sobre sua vida pessoal. Logo Mário que ensinou tudo a Drummond, unanimidade entre todos os brigões da época. Os “marginais”, “desbundados”, “ripis” e ”malditos” dos anos 70 perderam muito ao não reler Mário nos anos 60.

- Queria saber da opinião do Fred sobre os demais agitadores culturais pós-Navilouca que transitaram dos anos 70 aos 80, como Leminski, Ana C., Sérgio Sampaio, mais do Macalé, o próprio Cacaso e artistas plásticos e cineastas cujos nomes não tenho por conta de minha ignorância. Ainda sinto necessidade de um mapeamento artístico dos anos 80 em livro.

Foi isso. Fred, comprei teu outro livro ontem mesmo. Mas agora estou com o Impressões de Viagem da Heloísa, também em fase de rabiscação.

Programa Peneira

Tropecei-me todo de encontro ao acaso com a minha entrevista na Rádio PUC-Rio, no ano passado. Mandei tocar lá: Qinho, Löis Lancaster e Garotas Suecas. Escute só:

http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?tpl=popup_radio_programas&ed=radio_programas_peneira&filename=20100208_peneira.mp3&infoid=6048&sid=124

Orelha do Andityas

Acaba de sair pela 7Letras, Auroras Consurgem, de Andityas Soares de Moura. Descobri o Andityas por causa da minha dissertação de mestrado e de tanto lê-lo, vejam só, acabei fazendo a orelha do Auroras, que além de ser o mais novo é o mais legal dos livros dele, na minha parcial e humilde opinião. E prestenção: em julho ele será uma criança insuportável! Mas por enquanto, leia a orelha abaixo e compre o livro aqui!

As auroras de Andityas consurgem para libertar aquilo que Nietzsche – outro interlocutor de auroras – chamou de “educação clássica”. Tanto o poeta mineiro como o filósofo alemão foram treinados nas virtudes antigas, e ambos foram impelidos, ao longo de suas carreiras, a livrar-se de tal estigma. Andityas assume em Auroras Consurgem seu papel de “vilão da vila” (em “Crepúsculo”), de “traidor do Messias” (“D’o Evangelho de Judas”). Logo ele, que cultivou e conheceu por si e só, neste século XXI, todos os poetas latinos, os trovadores provençais e a gramática galega, como nenhum outro poeta da novíssima geração. Toda esta educação, muito bem executada nos seus livros anteriores Lentus in umbra (2001), OS enCANTOS (2003) e FOMEFORTE (2005), agora dá lugar a “Língua de fogo do não”, título do poema-manifesto, espécie de “Procura da poesia” de Drummond, às avessas:

“O poema não produz dividendos. Não distribui lucros. Não faz dormir melhor. O poema não sorri nas campanhas eleitorais. / O poema não gosta de telenovela e nem está preocupado em como estacionar no shopping-center (…) Infame ter de se concentrar para sentir o pejo de um mundo sem poesia”.

Uma overdose necessária de ceticismo, Auroras é um desconforto na mesa de jantar do paideuma do próprio Andityas. Em “Poema para ser lido na ceia de natal”, T.S. Eliot é cutucado com vara curta logo no primeiro verso: “dezembro é o mais cruel dos meses”. Em “Lembranças de um poeta argentino”, afirma sobre a cidade em ruínas que não quer “ser Jorge Luis Borges” para poder dizer palavras “limpas e claras”. Andityas está de elogios a seus mestres. Enfrenta, discute, não consente. Está farto do comedimento, tem o ímpeto de Zaratustra, puxa o tapete vermelho da poesia intemporal, e por isso mesmo, mostra aqui seus melhores versos, na manhã dessa nova década de poesia.