Mário de Andrade, dicionário e telecurso musical de qualquer escola de música brasileira, escreveu, pasmem, sobre o theremin:
“Também uma das importantes descobertas musicais da atualidade, o aparelho eletromagnético inventado pelo russo Theremin, parece profetizar a música como simples movimeto sonoro. Esse “instrumento de Ondas Etéreas”, cujos sons, em portamento constante (pelo menos por enquanto), são obtidos por movimentos da mão se aproximando ou se afastando dele, parece ter um futuro enorme, pois pode dar timbres variados, todas as intensidades e todas as gradações sonoras existentes dentro do intervalo de semitom. Causou impressão muito grande quando, imperfeito ainda, foi apresentado por Theremin nos centros musicais europeus. Hoje o instrumento de “ondas musicais”, na solução que lhe deu Maurício Martenot, já era bastante difundido, e para ele Milhaud escreveu diretamente uma Suíte.” (in Pequena História da Música, edição de 1987, p. 193)
O velho Mário de 1944, que morreria novo logo em seguida, embora cheio de questões com a música brasileira, dela não estar em compasso com a européia, tentando o tempo inteiro negociar uma educação mais rígida musical para o povo “naturalmente musical” mas “ingênuo” como o brasileiro, realmente entendia da vanguarda musical daquele tempo, se ligava no que acontecia no velho continente, e preconizava um cado de coisa do tipo: “Se vê por este despropósito de pesquisas generalizadas pelo mundo todo, que estamos numa fase de timbres”. O careca tava certo. Chegou a tal conclusão enumerando uma série de novos instrumentos (pianola, intuonarumori, etc) que surgiam na primeira metade do século, cada um com sua peculiar variação timbrística. Em seguida o malandro escreve, “quanto à forma, tem de tudo. A insatisfação inquieta renova todas as formas do passado”. Beabá tropicalista, beabá pós-modernista, beabá da música boa!
E pra quem tá achando que o paulistano acha tudo isso um saco sem fim, ele termina o livrinho da seguinte forma: “… e faz da música atual, nas suas manifestações mais características, o livro jorro sonoro no tempo que julgo ver nela e por onde a compreendo e quero bem.” Também te quero bem, Mário.








