What’s up, doc?

“The rabbit-hole went straight on like a tunnel for some way, and then dipped suddenly down, so suddenly that Alice had not a moment to think about stopping herself before she found herself falling down a very deep well.” (Lewis Carroll, Alice’s Adventures in Wonderland)

Convido-vos a fazerem o mesmo nestes dois mundos de outros dois Coelhos distintos. Distintos pensadores, distintos amigos, distintos Coelhos.

Eduardo Coelho, Autores e livros
Frederico Coelho, Objeto sim objeto não

Panfletando

Passei os últimos dias – marcados pela repressão à liberdade sexual e de expressão, videos fofos virais no youtube e anistia dos desmatadores da floresta amazônica – tomado pelos shows do Paul e pela biografia do John. Fermentando tudo isso hoje, lembrei que havia feito essa gravação aqui, do Grã-Ordem Kavernista de Raul Seixas e Sérgio Sampaio.

Dedicado pra quem tá sick and tired of hearing things.

Eta Vida by marovatto

A cena

Fiquei muito feliz em aparecer 3×4 na primeira página do Segundo Caderno do Globo junto com tantos amigos e pessoas incríveis que tanto admiro. A discussão levantada pelo Luiz Fernando Vianna é totalmente relevante, dada a profusão de cantores, cantoras, bandas e compositores extremamente talentosos surgidos nos últimos cinco-dez anos que representam – e representarão para as futuras gerações – a música brasileira do início do século XXI.
Acontece que, ao abrir a segunda folha do caderno, me deparei com as minhas declarações. Jesus, Mariano, que mau humor é esse? “Aqui acabou a música em processo”?! Meu filho, o que é “música em processo”? Mal lançou um disco e já está cantando de galo? Muitas coisas podem ter acabado no Rio de Janeiro, mas música (e em processo) temos de sobra. Logicamente, é uma missão complicada para o jornalista sintetizar um papo que rendeu dois telefonemas, mais de meia hora de conversa, num pequeno parágrafo. Acredito que o Luiz Fernando tenha conversado o mesmo tanto de tempo com os outros entrevistados da matéria e, se colocasse na íntegra o que cada uma falou, num mundo ideal (na internet?), o Segundo Caderno inteiro estaria tomado pela discussão.
O problema é que me senti um tanto bipolar e xenófobo da minha própria cidade perante a minha taquigrafada declaração, que não condiz com o meu trabalho na música. Lê-se aí meu disco, em que participam 32 músicos da cena carioca – a maioria deles presente na matéria –,e o “Segue o Som”, programa de TV onde todos os artistas retratados na primeira página (e também os citados ao longo do texto), sem exceção, foram entrevistados ou devidamente apresentados por mim e pelo Maurício. Concordo 100% com o Romulo Fróes, que disse que “a cena atual é uma das melhores da história da música brasileira”. E acho a mesmíssima coisa da cena da poesia atual. E não me engano. Sejam nos bons e nos maus talentos. A música evidentemente não acabou, ao contrário, ela está só começando pra mim e pra toda essa geração. Mas, estruturalmente, estamos longe do environment ideal necessário para bem nutrir todos esses talentos.

Falta de tudo na música do Rio? Sobra talento: Do Amor, Tono, Rabotinik, Letuce, Jonas, Qinho, Os Outros, Mario Maria, Rafael Cosme, André Carvalho, Silvia, Dimitri, pra falar dos mais próximos de mim nesse momento. Só com esses nomes temos um festival muito mais edificante do que o Rock In Rio 4. Sem falar nos mestres Domenico, Moreno, Kassin, Pedro, Rubinho, Löis, Hermanos e a Orquestra, norteadores da música carioca da década que acabou de passar. O que entristece é o potencial desperdiçado que o Rio de Janeiro tem de acolher bem as suas próprias novidades. O Do Amor, por exemplo, tocou em quase todos os estados do Brasil nos últimos dois anos, participou de todos os festivais relevantes e, como disse o Luiz, faz quatro shows no Rio por ano.
Citando novamente o Romulo Fróes, “o Brasil não expande, vai ficando cada vez mais em São Paulo”. Em matéria de infra-estrutura, São Paulo é incontestável e imbatível. Mesmo com seus problemas. E, naturalmente, quando há um mínimo de infra, é gerada uma reflexão, um pensamento organizado sobre o que está acontecendo. E isso não é novo por lá vai fazer 100 anos. Vide a Semana de 22, o projeto Concretista, o pensamento musical de Tatit e Wisnik e os argumentos pertinentes do Romulo. A praia carioca é a sua potência, sim. Mas não basta a aparência, a paisagem, o Corcovado, o filme da ararinha azul em 3D, as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Não adianta construir uma utopia que, como já disse Caetano, a gente sabe que vai virar (e já é) ruína.
Fico feliz em ver, por exemplo, um festival de pequeno porte como o Festival Mundo em João Pessoa, onde há uma pequena e suficiente estrutura para receber e pagar os artistas e onde aparece um público interessado (e interessante). O Rio de Janeiro poderia fazer 10 festivais como esse por ano, movimentando os novos artistas, angariando público, gerando discussão e até lucro. Mas é mais rentável produzir um mega festival com um patrocínio milionário que, com certa razão, prefere ter sua marca associada a grandes nomes da música já estourados no mercado.
O Rio era o berço das grandes gravadoras e por isso havia um modus operandi musical muito bem resolvido por aqui nos anos 80 e 90. Acabaram-se as grandes gravadoras, é preciso agora botar a mão na massa e a cabecinha pra funcionar. Existem mil maneiras de movimentar dinheiro no novo mundo da música. Cada dia surge uma nova ideia na internet. É preciso potencializar toda essa vitrine que o Rio de Janeiro é em pensamento cultural produtivo. Exemplos de empreendedores musicais, selos e sites cariocas não faltam. A cada programa do “Segue o Som” a gente apresenta alguém ou alguma proposta nova que esteja rolando. Talvez o primeiro passo seja simplesmente virar os holofotes para a cena do Rio e ouvir o que ela tem a dizer. Não é?

Allons enfants de la Patrie!

Depois de Debussy, Satie, Fauré, Ravel, Gainsbourg e Claude Joseph Rouget de Lisle – o cabra que compôs a Marselhesa -, a França, essa pátria tão cara a todos nós e a muita gente, me vem com essa maravilha da canção do século XXI:

François, como bom francês, é bonito, charmoso, talentoso, vaidoso, culto e invejado. Vai no site dele: www.kidfrancois.com

Solar de Botafogo

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Tô mais maneiro nessa foto. É hoje, hein?

Show no Solar quarta-feira, 30

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Se você é uma pessoa que gosta de comodidade, prevenção, conforto e cartão de crédito, pode adquirir seu ingresso no Ingresso.com, antecipadamente.

Aquele amor nem me escute

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Essa semana que passou gastei o verbo pra falar d’Aquele amor nem me fale. Domingo foi no Geleia Moderna, ao vivo na Roquette-Pinto aqui do Rio, comandado pelo fabuloso Jorge Lz. Terça fui apresentado formalmente e finalmente a Belo Horizonte no programa Viamundo, da Radio Inconfidência, sob a batuta de Daniella Zupo e Flávio Henrique. O bis-bônus vai rolar no domingo dia 3 de abril na Cultura Brasil de São Paulo, sob a regência de Solano Ribeiro. Oiça-me:

Geleia Moderna, 20 de março
Viamundo, 22 de março
Nova Música do Brasil, só dia 3 de abril

Geleia Moderna no próximo sábado

GeleiaMariano

Churrasquinho Sunset

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Das Racist

Não foi o umbigo de Sufjan Stevens (The Age of The Adz) ou a megalomania de Janelle Monaé (The ArchAndroid) o grande disco da música norte-americana do ano passado. Foram Shut Up, Dude e Sit Down, Man, dois discos de um mesmo trio de rap formado no Brooklin chamado Das Racist. Eu não tenho a menor tarimba pra falar de hip-hop, tá na cara, mas muitas vezes me parece – daqui da minha visão de quem fez um disquinho de bossa nova no Leblon – que o discurso do rap não saiu daquela antiga querela da juventude engajada brasileira dos anos 60: ou se ataca o sistema destilando nos versos a crueza da “vida real” ou se enaltece o filet mignon provido pelo sistema (mulheres, armas, carros, drogas, mansões, iates, 100 mil dólares, como diria o Leôncio naquele desenho do Pica Pau).

O Das Racist já começa a léguas de distância do resto porque não tem nada com um grupo ou com outro. Eles são “diferentes”. Vejamos o nome de cada um dos integrantes: Victor Vazquez (ou Kool AD), Himanshu Suri (ou Heems) e Ashok Kondabolu (ou Dap). A família de ninguém ali tem relação com os primeiros brancos americanos que construíram tão belo país, muito menos com os negros escravizados por estes brancos americanos. Eles são filhos de descentes cubanos (Che!) e indianos (Gandhi!) que foram tentar a vida em Nova York, ainda a cidade mais plural do mundo. Como diria o Cacaso “NY é tão cosmopolita, tão sem raízes que o sujeito se sente de onde veio”. Mas a afirmação do discurso deles é justamente ironizando essa falta de raízes americanas do grupo. Embora somente uma cidade como Nova York pudesse gerar um grupo desse feiti(ç)o, a peleja do trio é contra o preconceito do mundo hip-hop norte-americano ainda contaminado com a bipolaridade ideológica. Vejamos esse incrível clipe de Who’s That Brown?, uma homenagem a todos que jogavam Double Dragon antes de ir pra escola:

Brown, pra quem não sabe (eu não sabia), é uma gíria pejorativa pra quem não é branco nem negro, ou seja, um vira-lata sem pedigree. Aqui no Brasil mulato é elogio carnavalizante, nós sabemos. Mas lá o Das Racist são a minoria brown numa maioria branca ou negra. As referências obscuras e pessoais da letra da música em questão são desvendadas por este incrível site chamado Rap Genius. Clica nos versos em laranja de Who’s That Brown? e descubra as entrelinhas.

Em novembro passado o Das Racist, por falta de documentos, não conseguiu entrar na Inglaterra para se apresentar. No blog eles contam como foi ficar oito horas detidos no aeroporto britânico juntamente com outros vira-latas do mundo: “We were there with two Iranian men, a Brazilian woman who spoke only Arabic and an Indian man with a student visa who couldn’t speak a lick of English. Our people!” A mistura é sempre marginal.

Mais genialidades sobre esse tema em Chicken and Meat

e em Ek Shaneesh.

E que tudo isso tem a ver com aquele livro do Fred que não me sai da cabeça, tem. Marginália até o talo. Sem falar nessa abundância de sarcasmo e referências pessoais, tão caros a poesia de agora no Brasil, onde meninos vão com O’Hara e meninas com Adília. Aliás um Rap Genius com “lyrics and meaning” dos poemas da galera é uma ideia, hein? Papo prum próximo post.