Sobre o show, por Ismar Tirelli Neto

Bom, de todos os resgates possíveis, vai o Marovatto e opta justo pelo gracioso: penso eu, semanas depois, tentando refazer o gig no Espaço Multifoco; o entusiasmo dos amigos, a leveza repassando, qualquer coisa de ondeante na voz das meninas (que saudade), esteando o booming tenor Marováttico, que arrebenta por sobre. Como se sabe, ele mora a quinze chineladas da praia. E essa proximidade estava bem lá, naquela noite, na Lapa. Também na sutilíssima malha das cordas, a mestria e suavidade do baixo, e por cima o teclado operando nostalgia frente aos olhos de todos; de todos os resgates possíveis, vai o Marovatto e escolhe as tardes de sol brando, os passeios pela Orla, o manejo da palavra mínima que tanto remete à bossa nova. Sim, estamos no território do amor, do sorriso, da (pequena) flor – estamos no domínio daquela mesma elegância des-esforçada, que faz o instrumental mais intricado parecer inevitável, necessário mesmo ao andamento da coisa, algo que somente se atualiza e pronto, existe, como se já existisse desde sempre. Porque já não é mais uma questão de mostrar serviço, certo, malta? É outra coisa – é produzir beleza – uma oferta “simples”, mas que nos escapa um pouco em termos geracionais. O manejo da palavra mínima é também o manejo da palavra exata, cinzelada. Os instrumentos se bicam o tempo inteiro, procurando brechas onde soar um no caminho do outro, justamente para criar essa ausência de complicação. Você leva o seu bem para passear na orla e (espero) não pensa em como se conjugaram os elementos da paisagem. Não, ela está lá. Paisando. Inteira como as canções.

É preciso fazer por onde e aproveitar.

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