Este site é, além de tudo, um arquivo em progresso. Aos poucos, vou disponibilizando por aqui tudo o que venho produzindo e o que produzi — ou quase tudo — nas últimas três décadas. Coisas que estavam em papéis, cadernos, disquetes e CDs, e um apanhado do que fiz na internet: texto, áudio, vídeo, projetos, ideias, coisas sem fim e sem finalidade. Insistência. Insistência na memória e insistência no arquivo. Não o arquivo espólio morto, mas o arquivo vivo, campo de diálogo, sujeito a múltiplas camadas de interpretação e intervenção.

Mas quem se importa? Ninguém. Ninguém me pediu nada. Ainda assim, me coloco a tarefa — paciente e obcecada — de organizar e dar a ver o que estava disperso e guardado. Não será um monumento. Isso aqui é internet, parecida com o Rio de Janeiro, não tem garantia de preservação: é um regime de ocultação, apagamento e obsolescência acelerada. Som e fúria. Como eu disse, é preciso insistir.

A velha metáfora do arquivo como um depósito da memória se dissolve quando pensamos, como o Michel Foucault, que o arquivo é um sistema de enunciabilidade — isto é, aquilo que se arquiva é, antes de tudo, aquilo que pode ser dito. Assim, o arquivo é menos um acervo do que já foi dito e mais o operador do que pode ainda ser dito. Arquivar é produzir raridade, estabelecer cortes, construir redes de correlação e legitimação. E aí está a ideia central da coisa toda: a memória como projeto e processo em curso. A cada nova publicação, canção, livro, a cada leitura e releitura, a cada reorganização desse acervo on-line, a cada conexão inédita entre objetos antes apartados, o arquivo respira. E o passado, longe de ser estático, se reconfigura a cada consulta. Arquivar é agir sobre o tempo. O arquivo é o limiar histórico da linguagem, diria Foucault.

A nuvem digital tudo promete armazenar mas pouco nos devolve. Eu estou entregando tudo o que tenho. “Guardar uma coisa não é escondê-la” — diria o grande poeta — muito menos trancá-la numa caixa, numa gaveta, no escaninho morto da história. Guardar é mirar, velar, vigiar — isto é, estar por ela, ser por ela. Arquivar é um gesto de presença. De relação. Ao tornar este arquivo público, estou dizendo: “isto me olha ainda”. E agora, vocês se olham.