O Mariano teve muitas casas. É um daqueles homens barthesianos que às vezes são forçados a reservar uma parte da vida ao efêmero, "aquilo que acontece uma vez e desaparece, é a parte necessária do Monumento Recusado". E eu, que também sou do efêmero e muitas vezes vi o Mariano, o encontrei quase sempre nas ruas. E eu, que leio o Mariano desde há muitas e muitas casas, tenho para mim que a sua poesia é rua. A rua nega e, ao mesmo tempo, faz as casas. 

O Casa do Mariano é o seu Monumento Recusado. Não há maneira melhor de recusar do que erguer "Um lugar alheio para guardar/ um bilhete lembranças echarpe/ cardigã transparência lençóis". A casa está sempre noutro canto. A casa tem que estar noutro canto, ou não sobreviveríamos aos chacoalhos. A casa é um monumento aos mortos de guerra bem no meio da avenida da praia. São nossos, os mortos. São nossos os tapetes sujos, os papéis velhos e os fios de cabelo que as visitas deixam nas nossas salas. As visitas podem nunca mais voltar. Os tapetes e papéis a gente carrega para a casa que vem.

"Casa é cuidar dos vivos / e enterrar os mortos." Uma vez ouvi o Mariano dizer que a casa é o mundo. Estávamos na rua.

(Victor Heringer)