Tudo começou com os portugueses no século XVI, na era dos descobrimentos. Os maiores desbravadores marítimos da história náutica ocidental, os navegadores de Portugal foram os primeiros a encontrar o caminho para as índias e os primeiros ocidentais a chegarem nos mares do extremo oriente, até desembarcar no Japão, o ponto final do mapa-mundi português. Para manter a soberania do comércio de especiarias orientais, Portugal estabeleceu diversos portos espalhados por todo o Oceano Índico. Os mais duradouros e lucrativos para a coroa portuguesa, e onde a língua portuguesa ainda pode ser lida e se der sorte, até ouvida, foram Goa, na Índia, Macau, na China e Malaca, na Malásia. Ao mesmo tempo em que entrava em contato com estas culturas exóticas recém descobertas e levava para o ocidente todas as novidades do misterioso oriente, os portugueses também acabavam por deixar sua marca cultural nestas então ermas localidades do globo terrestre. Em uma das viagens de Malaca, na Malásia, para Java, na Indonésia, a música portuguesa plantou algumas de suas sementes, graças ao cavaquinho, o menor e o mais festivo dos cordofones portugueses.

Com o passar dos anos, lá pelos 1900, o kronchong (pronuncia-se “queronchôngue”), nascido da música do cavaquinho português, foi tomando forma através das festas populares javanesas e já na década de 30 era o principal estilo de música popular da Indonésia, uma caminho muito parecido com o do nosso samba. Durante as guerras da independência que tomaram conta do país asiático na década de 40, chegaram a surgir diversas composições de kronchong com motivos patrióticos. Neste período áureo do ritmo, um conjunto clássico de kronchong era formado por dois cavaquinhos indonésios – que também se chamam kronchong e, diferentemente dos cavaquinhos portugueses e brasileiros, bem como os ukuleles havaianos, primos do nosso cavaco, o kronchong possui apenas três cordas – violão, violino, flauta, percussão e contrabaixo. Tudo isso acompanhando uma cantora, tal como o fado. Quem dita a linha rítmica do kronchong são justamente os dois cavaquinhos: um é conhecido com cak (pronuncia-se “cháque”) e o outro como cuk. A diferença entre os dois está no tamanho e no jeito de tocar: o cak acentua cada compasso, alternando com o cuk, o maior, que marca o contratempo do cak. Traduzindo aos ouvidos, os dois instrumentos mantêm o ritmo da mesma forma que o pandeiro e o cavaquinho fazem no nosso chorinho. As melodias diatônicas e lânguidas, feitas pelo canto feminino ou pela flauta e violino, quando estes não estão acompanhando a cantora, remetem imediatamente ao fado português, e, mais longe, a música taarab do ocidente africano. Existe ainda um estilo de kronchong mais regional conhecido como langgam Java, feito nas redondezes do Rio Solo, com forte influência da música feita com gamelão, o instrumento mais típico da Indonésia. Não à toa a mais famosa composição de kronchong, chama-se Bengawan Solo, uma homenagem a bela paisagem do rio, composto em 1943 pelo cantor e compositor Gesang. Bengawan Solo possui centenas de regravações e é um marco na história cultural indonésia, tal como Garota de Ipanema para nós brasileiros.

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Criado por

Mariano Marovatto
(Rio de Janeiro, 1982)

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