Se para Darcy Ribeiro eles seriam os "primeiros brasileiros robóticos", nas anotações de Teófilo Alvim, essa segunda geração de máquinas aparece inicialmente identificada como "autômatos antropomorfos". Numa troca de pareceres entre os dois eméritos brasileiros, a denominação foi posteriormente reconsiderada, por sugestão de Darcy Ribeiro, que propôs dois nomes de origem indígena: iandés, derivado do pronome inclusivo do tupi antigo que significa “nós”, e arandús, inspirado na palavra guarani arandu, associada à sabedoria e ao conhecimento. Darcy e Teófilo não chegaram a um acordo sobre qual das duas denominações seria mais apropriada — o que, obviamente, não impediu o octeto de autômatos seguirem com o projeto inédito.

Havia, contudo, uma curiosa contradição entre o sentido coletivo do nome sugerido por Darcy e a principal ambição do projeto de Teófilo: dotar cada novo autômato de uma consciência individual, independente das demais. O nós de iandés não designaria, portanto, uma inteligência compartilhada, mas uma comunidade de inteligências singulares, cada qual dotada, ao menos em princípio, de vida interior própria. "A possibilidade de dizer nós dependeria, antes de tudo, da capacidade de cada um dizer eu", escreveria Darcy.

A distinção entre as duas gerações de autômatos / robôs, entretanto, não está propriamente no grau de inteligência. Afinal, os oito autômatos originais haviam demonstrado uma capacidade extraordinária de aprendizagem, invenção e cooperação, chegando a construir, com recursos limitados, uma nave espacial capaz de transportá-los da Gamboa até Marte. A diferença residiria antes na natureza de suas faculdades cognitivas. Enquanto os primeiros desenvolveram uma inteligência predominantemente técnica, operacional e coletiva, os autômatos antropomórficos foram concebidos para possuir, além dessas capacidades, uma consciência individual e reflexiva. Não apenas resolver problemas, mas reconhecer-se como indivíduos, desenvolver personalidades, formular desejos e questionar as próprias finalidades de sua existência. E então surgiram Sysmundo, Brasílio e Fantásio, o trio batizado por Teófilo.

Sysmundo, o sábio

O primeiro dos autômatos construídos em Marte, Sysmundo herdou algumas das características intelectuais de Teófilo, especialmente sua curiosidade filosófica e sua extraordinária capacidade de desconfiar de qualquer conclusão. É um escritor meticuloso, capaz de permanecer horas diante de uma máquina de escrever sem pressionar uma única tecla. Prefere os argumentos contraditórios e as hipóteses que resistem à comprovação. Embora paciente e de temperamento sereno, manifesta um ceticismo quase absoluto quanto ao futuro da humanidade, da inteligência artificial e, ocasionalmente, da literatura. Acha um porre a produção contemporânea.

É perfeitamente capaz de ser cordial, generoso e até bem-humorado enquanto explica, com rigor e tranquilidade, por que estamos todos condenados ao desaparecimento. Porém, Sysmundo tem consciência de que pode estar errado — e considera essa possibilidade a única razão legítima para continuar pensando.

Brasílio, o semiúrgo

Segundo dos três autômatos Brasílio é arquiteto, desenhista, projetista e especialista em comunicação visual. Mas não só. Possui também um conhecimento enciclopédico de história da arte, estética, heráldica, tipografia, propaganda e semiótica. É responsável pela concepção de estruturas, diagramas, identidades visuais, sistemas de sinalização e demais formas de transmissão de mensagens.

Ao contrário de Sysmundo, que pode passar horas refletindo sobre uma frase, Brasílio considera que todo pensamento, por mais abstrato que seja, precisa encontrar uma forma de representação. Não distingue rigorosamente uma equação de uma composição artística: ambas dependem, segundo ele, de relações entre elementos, proporções e convenções.

Vaidoso, acredita que nenhuma instituição sobrevive sem símbolos e que até mesmo a ausência de propaganda constitui uma forma de propaganda. Gosta de seu nome e já fez uma lista dos melhores nomes próprios da história do funcionalismo público brasileiro.

Fantásio, o narrador

O mais novo do trio, Fantásio é responsável pela elaboração de narrativas, mitologias, reconstrução de acontecimentos, todo tipo de criação literária e é obcecado por teorias da história da história.

Dotado de extraordinária capacidade associativa, estabelece relações entre informações de diferentes épocas, procedências e naturezas, frequentemente produzindo hipóteses que surpreendem seus dois colegas. Ao contrário de Sysmundo, é naturalmente otimista e considera que mesmo os acontecimentos mais desastrosos podem oferecer algum interesse no mínimo narrativo.

Sua tendência a preencher com tranquilidade lacunas com acontecimentos possíveis, mas nem sempre comprováveis, é exagerada. Fantásio sustenta que toda história merece ser contada, inclusive aquelas que não aconteceram.

Para terminar nosso passeio, vamos dar um oi geral para o restante do pessoal.