Na segunda-feira, depois do primeiro turno, vi três pessoas no metrô lendo livros. Enquanto uma senhora sentada lia Aline Bei, o rapaz em pé à sua frente tinha aberto sobre o rosto a edição da Unesp do Quincas Borba. Depois, quando saí do vagão, um homem entrou com o Crítica de ouvido de Sebastião Uchoa Leite, semi fechado na mão direita, segurando com o dedo indicador a página marcada. Tudo seriam sinais, se eu fosse um idiota, seriam. Lembrei do primeiro fato distópico, o paciente número um, atravessando a minha percepção. Fo na inominável manifestação de 20 de junho de 2013, final da tarde, enquanto eu subia incauto as escadas rolantes do mesmo Metrô Rio, na estação da Avenida Presidente Vargas, em direção à Praça Onze, e vi ao meu lado a primeira de inúmeras senhoras (que se replicaram de lá para cá) vestida com a camisa da seleção brasileira, pintada com um dedo de tinta verde e outro amarelo em cada bochecha, com algum adereço também bicolor sobre o cabelo tragicamente tingido de loiro. Ela não pertencia a lugar nenhum. Nunca vira aquilo. Parecia uma torcedora de amistoso do Brasil deslocada no tempo e espaço. Quem fabricou aquela senhora do dia para a noite? Era ela a primeira rachadura do Pacto Social de uma democracia que até então parecia florescer, torta e feia de início, desde a morte do Tancredo Neves. As coisas tomam tempo para ganharem corpo, multidão, uivos e bafos quentes. Mas aprendemos que chegam.
Há algumas semanas li o livro O dia das trífides, deste senhor escritor inglês de ficção científica chamado John Wyndham. Bill Masen, o herói do livro, acorda num hospital e descobre que quase toda a humanidade ficou cega após um estranho e bonito fenômeno luminoso vindo dos céus, na noite anterior. Ao mesmo tempo, as trífides — plantas criadas em laboratório, que se movem, são venenosas, mas foram cultivadas em escala industrial pelo seu valor econômico — escapam do controle humano e passam a dominar o espaço deixado pelo colapso da civilização. Ao lado de Josella Playton, Bill atravessa uma Inglaterra devastada e encontra diferentes tentativas de reorganização social, de comunidades religiosas a projetos autoritários e cooperativos. Depois de anos resistindo numa fazenda cercada por trífides, os dois percebem que o isolamento é inviável e são obrigados a fugir da turba do regime militar e neo-feudal que o encontram, e fogem para uma comunidade alternativa, instalada na Ilha de Wight. E assim termina o livro, com a esperança de que uma sociedade organizada pela ciência e pela cooperação consiga, no futuro, reconquistar o território ocupado pelas trífides.
Lançado em 1951 (e publicado esse ano pela Editora Aleph, com tradução de Bráulio Tavares), o livro — que é um proto-Ensaio sobre a cegueira sem os floreios do Nobel português (se alguém souber se Saramago leu Wyndham de fato, mande sua cartinha para a nossa redação) — apresenta já nas primeiras páginas como o Pacto Social se desfez do dia para a noite, literalmente. Wyndham não resolve a equação. Com o desaparecimento do Estado o escritor testa sucessivos modelos de organização social, colocando em questão os pressupostos e valores de cada um deles, em vez de simplesmente oferecer uma utopia final. O modelo mais opressor, militar, eugenista e pós-feudal, pelo medo, acaba se transformando no mais poderoso, como se pode prever. E o que os mantém no poder (além das armas) são as trífides. Desde o início do romance, elas são perigosíssimas. Matam seres humanos com seus ferrões, movem-se pelas superfícies, reproduzem-se em escala extraordinária e se comunicam entre si. Porém, produzem um óleo excepcionalmente valioso. Então, como grande parte das commodities inventadas pelo homem, o perigo que ela inflige passa a ser tratado como um problema técnico de gestão. Cortam o seu ferrão, amarram-na dentro de cercas e continuam extraindo o seu óleo. As trífides são aquilo em que uma tecnologia-mercadoria se transforma quando deixa de ser apenas uma coisa que usamos e passa a constituir o ambiente dentro do qual somos obrigados a viver. Imagine só, que loucura uma coisa assim, hein?
Então, mastigadinho, fica assim: trífide é o algorítmico dessa telinha que te mata lentamente. O óleo da trífide são os seus dados, sua atenção e o seu tempo roubado. A cegueira, bem clara, é a crise da orientação coletiva. A questão da proliferação das trífides é esse regime de manutenção permanente: a armadilha territorial dos data centers, por exemplo, e a dependência infraestrutural que eles pressupõem. Por fim, para o controle de tudo, a resposta tecnofascista. A parábola toda funciona muito bem. John Wyndham, no entanto, traz uma metáfora melhor do que a gastíssima “vivemos em bolhas”. Anna me disse que não existem mais bolhas, afinal, as bolhas estão aí para serem estouradas. Nós, vocês, que estão lendo esse texto, vivemos sim na mesma Ilha de Wright. Lá fora é a milícia pentecostal da CIA.
(Tinha pensado em um bocado de outras coisas para escrever, como por exemplo fazer uma boa lista de livros contando timtim por timtim como e desde quando os Estados Unidos vem sabotando o nosso frágil Pacto Social, por exemplo: o incontornável O método Jacarta, de Vincent Bevins, O grande irmão, de Carlos Fico, o recente Olhares Ianques, de Felipe Loureiro, entre muitos outros).
A democracia, agora sob cuidados paliativos, dependia do confronto entre diferentes interpretações e propostas. Mas fatos materiais e conclusões científicas sustentadas por evidências não se tornam questões de opinião simplesmente porque suas consequências são politicamente inconvenientes para o espectro da direita. A grande imprensa ocidental desenvolveu pelo menos duas maneiras de obscurecer essa distinção. Carlos Castilho descreveu a fórmula mecânica do fulano disse, sicrano disse como uma forma de “falso equilíbrio”. Nos jornais é comum que uma reportagem ouça tecnicamente os dois lados e, ainda assim, não consiga esclarecer a realidade, sobretudo quando conhecimento científico e afirmações sem fundamento são apresentados como contribuições comparáveis a uma conversa democrática. A segunda é mais sofisticada: aceita as evidências, mas restringe as soluções possíveis àquelas que não perturbem a estrutura que produziu o próprio problema. (E no bloco seguinte trazem os gols da rodada do Brasileirão.)
Para quem não acompanha essa newsletter, em Realismo capitalista, o falecido e sempre citado, Mark Fisher descreveu uma cultura na qual o capitalismo havia se tornado tão dominante que as alternativas (principalmente o socialismo e o seu ideal, o comunismo) começavam a parecer não apenas indesejáveis, mas quase inimagináveis. Sua ideia segue influente porque descreve não apenas o sistema econômico, mas também um limite imposto à imaginação política e, por rabo preso conseguinte, jornalística. Bom, talvez não exista mais imprensa. Existem exércitos, data centers, algoritmos e Javé. O resto está um pouco cinzento. Talvez nem aquela frase do Gramsci esteja valendo agora. Para ajudar a passar pelas próximas três semanas, vou buscar vocabulário e repertório nos livros de ficção especulativa. Espero trazer ótimas distópicas novidades. Para quem for virar voto, cuidado com as trífides.