Pra quem achou que eu não vinha mais, olha aí. Eu sei, já estamos em dezembro. Os assuntos foram se acumulando e o tempo foi engolido pela bocarra do mundo. Aumentando a metáfora, é o universo que está sorvendo o nosso planetinha. A sensação é de que estamos sendo sugados por aquele gigantesco buraco negro fotografado pelas agências espaciais. E quanto mais tentamos nos comunicar, pedir uma ajudinha, mais alto se torna o volume da valsa vienense que anuncia o desaparecimento definitivo por esse ralo desdentado. Não deveria ser normal ficar estressado antes das coisas acabarem. Dezembro não é fácil.
Parece que sumi, mas a meu favor, devo dizer que escrevi recentemente um texto publicado pelo portal da Agência Pública sobre como andam colados o neoliberalismo e a autoficção. O neoliberalismo é uma cola nojenta que se gruda em tudo. Deve ter sido a palavra que eu mais usei neste ano, nesta newsletter. Queria abordar uma série de assuntos, cada um a seu tempo, por aqui. Ou melhor, queria ter abordado. Não teve como. A valsa do fim do ano, do fim do mundo, do fim dos tempos, reverbera nos falantes dos mil carros tunados que giram e giram e giram na boca desse aspirador magnífico chamado Dezembro.
Mas aí qual é minha solução? Retornar aos dois Andrades. Puta que pariu. É um porre, mas acontece sempre. Recentemente fui ao Pará e levei comigo o Turista aprendiz, do Mário, na mochila. E, preguiçoso, deitado numa rede, dentro de um barco, no Rio Amazonas, pensei: o Mário é o maioral. Mas veja: Oswald é Hermes e Prometeu ao mesmo tempo. Ninguém agrega dois mitos gregos numa só pessoa. Só o Oswald. Ele é Hermes porque rouba o gado de Apolo ainda bebê, inventa a lira para negociar a paz, mente com elegância divina e faz da ambiguidade uma técnica, cruza fronteiras entre deuses e homens, vivos e mortos, e sintetiza o país ao confundir verdade e engano. Oswald é Prometeu também porque pensa o futuro. Dizem os etmologistas: pro-métheus, “o que pensa antes”. Ele prevê o fracasso de Zeus, antecipa a necessidade humana, rouba o fogo como tecnologia e aceita o castigo porque conhece as consequências. Mas mesmo assim age. Até aí tudo bem.
Mas Mário é Atena. Atena é a deusa da guerra. É ela quem conversa ao pé do ouvido com os heróis (Odisseu, Perseu, Héracles), ela que funda cidades (Atenas, apenas. E São Paulo, depois. Risos.), estabelece pactos, códigos, instituições. Dentro dos mitos, Atena organiza o movimento e o sentido dos acontecimentos, define o que será lembrado como justiça ou civilização. Ela seria a arquivista-chefe de toda a mitologia. Arconte da porra toda.
Oswald Prometeu moldou os humanos do barro, mas Mário Atena insuflou o sopro racional, a téchne mental. Ele dá a matéria e a antecipação e ela dá a forma e a estratégia. Nunca foi um duelo, no início dos tempos, e sim uma divisão de trabalho. O fogo prometeico não é fazer tudo arder. Atena sabe do seu potencial “técnico”. Atena ensina a usar o fogo prometeico. Oswald Prometeu inaugura o futuro, mas Mário Atena o torna habitável. E é preciso, cara esquerda, habitar o futuro urgentemente.
Zé Celso foi um gênio ao conceber O Rei da Vela pela primeira vez — depois de trinta anos de existência do texto, nunca antes montado —, de uma forma tão arrebatadoramente prometeica que catapultou tanto ele como Oswald para fora dos muros de São Paulo. Nunca vi ninguém da minha geração leite com pêra da costa atlântica, ou até mesmo colunista, ensaísta, letrista, compositor, filósofo, jornalista, apresentador do GNT, diplomado em literatura, carioquíssimo, que desvalorizasse (tanto Zé Celso como) Oswald de Andrade pelo fato de ter(em) nascido paulista(s). São praticamente vistos como ex-alunos da Escola Parque. E aí, é o Mário que paga de engomadinho. O gay ilustrado e enrustido que estudou no Santo Inácio.
Em Verdade tropical, Caetano afirma que tanto Rogério Duarte quanto Zé Agrippino de Paula lhe catequizaram da seguinte forma: “Quanto aos paulistas, Mário de Andrade, não, esse não tem nada. Oswald de Andrade, sim, é o único que tem alguma coisa.” Mais à frente, Caetano reafirma sua distância com desdém à velha esquerda: “Mário de Andrade — cujo nome eu ouvia constantemente pronunciado pelos meus colegas nacionalistas”. Até chegar à terceira e última menção ao autor de Macunaíma: “Mário de Andrade [...] era uma figura sensata demais (até hoje ninguém parece se sentir à vontade para dizer que ele era veado — e os veados militantes preferem Oswald, apesar de este ter dado mostras do que hoje se chama horrivelmente de “homofobia”; e essa preferência só é abonadora para a nossa “comunidade gay”). Algumas afirmações envelhecem, mesmo ao lado daquelas que nunca envelhecem ou daquelas que fazem algum procedimento estético para não envelhecer tanto assim. O grifo é meu.
Em 1979, Caetano já havia demonstrado publicamente sua posição política em relação à escola formada em torno do nome de Mário de Andrade. Esta, dicotômica em relação à escola em torno de Oswald de Andrade, a qual ele pertence. Quando perguntado acerca da questão “nacional versus popular”, ele responderia:
Para mim é um pouco difícil essa questão de nacional e popular, porque eu nunca tenho isso como uma questão, nem como um projeto, nem como uma meta. Isso para mim é uma coisa… eu sou nacional e popular até onde não se pode mais ser. Para mim isso não vale como projeto. Quando vira projeto fica parecendo a peça Macunaíma [adaptada por Antunes Filho, encenada em São Paulo, uma década depois de O rei da vela], que eu acho meio chata. Parece que tem uma família de São Paulo que financia… vai o melhor intelectual fazer a melhor pesquisa e sai a melhor encenação do melhor Brasil, ideal, com ironia, mas tudo direitinho… Não é o meu mundo, eu nasci em Santo Amaro da Purificação, recôncavo da Bahia; vivi em Santo Amaro até 18 anos de idade, saí de lá e fui para Salvador. Então, a questão do nacional e do popular, para mim, não é um projeto, é uma coisa que já está… é como estar no mundo, viver no planeta… já sou eu mesmo… Então, eu sou de Santo Amaro, do povo do Brasil e tem coisas que, muitas vezes, eu me sinto tentado a combater porque são coisas que são viciadas por essa espécie de projeto de arte popular nacional oficial. No fundo é um projeto vago que as pessoas têm e que eu não só não me identifico com ele como percebo que o próprio Brasil não se identifica. É um projeto alienado, de fato alienado.
Eu estou com Caetano, eu amo o Caetano mais do que muita coisa que não deveria amar menos. Mas, claro, o centro financeiro do país não deve e não pode ditar as regras só por conta de sua vasta riqueza aplicada à cultura brasileira. O melhor jogador raramente é o dono da bola. Mas também gostaria de dizer duas coisas óbvias e nada chocantes, mas sempre preteridas. Para a tristeza de alguns e alívio de outros: 1) Mário de Andrade é muito maior do que São Paulo. 2) O Brasil é muito maior do que Santo Amaro da Purificação. Reflitam. (O segundo ponto vai ficar de dever de casa pro ano que vem.)
José Guilherme Merquior, que é uma outra pessoa (de fato) inteligente, mas duvidosa para a esquerda, portanto distante da bipolaridade “Mário contra Oswald”, coloca os dois em um mesmo grupo dentro do modernismo brasileiro: a corrente anarco-experimentalista. Segundo Merquior, “malgrado suas diferenças e sua rivalidade, os dois Andrades cultivaram um estilo essencialmente experimental, um primitivismo de inspiração cosmopolita e visão social anticonservadora e anarquizante”. E ele tá certo.
Neste mundo patriarcal, sob a égide do capitalismo petrosexorracial, com programa às segundas-feiras no GNT, tudo que permanece irresoluto acaba chegando às vias de fato, ou seja: violência e/ou sexo. Como a violência, do insulto à guerra, é a arma dos ressentidos, falarei apenas de sexo. Após ler a excelente biografia de Oswald de Andrade, escrita por Lira Neto, tenho ainda mais certeza de que a vida afetiva/sexual de Mário de Andrade era um milhão de vezes mais tesuda, bafônica, enlouquecida; quantitativamente e qualitativamente melhor do que a do autor do Rei da vela. Mesmo dentro do armário. Oswald tinha o seu ressentimento. Pagou o preço e acabou com sua amizade com Mário. E nós pagamos o preço dessa fratura até hoje.
Voltando à terrivelmente maravilhosa Grécia, creio que não há um mito clássico em que Atena e Prometeu entrem em choque direto. O conflito de Prometeu é com Zeus. Atena, curiosamente, nunca o delata nem o combate. O mito imita a vida.
Atena administra um mundo que Prometeu tornou perigoso — e irreversível. Ao entregar o fogo, isto é, a técnica, Prometeu inaugura um tempo em que nada mais pode voltar a ser apenas natural, imediato ou inocente. A humanidade passa a viver num regime de consequências cumulativas, onde cada invenção cria novos riscos, novas desigualdades e novos conflitos. É aí que Atena entra não como redentora, mas como organizadora do dano estrutural. Ela não apaga o fogo, nem restaura o Éden. Ela cria estratégias e narrativas capazes de orientar e simbolizar uma potência que já não pode ser retirada do mundo. Sua genialidade não consiste em prometer salvação, mas em tornar a catástrofe habitável. Atena é a deusa que entende que, depois da técnica, só resta política, inteligência e guerra pensada. Desejo união e reconstrução em 2026 para todos nós.