Em The Silent Woman, livro dedicado à enorme problemática das biografias de Sylvia Plath, Janet Malcolm expôs de modo inexorável a fragilidade ética e epistemológica do gênero biográfico. Para ela, o biógrafo é menos um arconte derridiano, guardião da memória, do que um transgressor: alguém que arromba casas e vasculha gavetas em nome da suposta verdade. Afinal, são poucos os leitores que buscam no gênero uma obra de ciência. A vasta maioria quer ver o circo pegar fogo através do buraco da fechadura. Segundo Malcolm, o biógrafo, ciente ou não, satisfaz esse impulso voyeur. Portanto, a pretensão de neutralidade é ilusória: toda biografia é marcada pela violência simbólica de transformar uma vida, complexa, paradoxal e opaca, em uma narrativa ordenada e consumível.
Malcolm analisa, em especial, o caso de Anne Stevenson, autora de Bitter Fame, biografia de Plath publicada em 1989 sob a tutela de Olwyn Hughes, cunhada da poeta. Stevenson tentou preservar certa imparcialidade, mas ao admitir as pressões familiares e o acesso controlado ao material íntimo, revelou a precariedade do pacto. Para Malcolm, o biógrafo só se sustenta quando encena autoridade absoluta; qualquer rachadura nessa fachada expõe o caráter inevitavelmente manipulador da empreitada. A biografia, diria Malcolm, é um gênero em que a traição ao biografado e ao leitor se traveste de fidelidade documental.
Se Janet Malcolm lança a suspeita de que toda biografia é uma forma de invasão, cabe lembrar que o brasileiro Lira Neto, além de praticante, é também teórico do gênero. Em A arte da biografia (2022), ele sistematizou suas experiências, propondo princípios metodológicos claros: evitar maniqueísmos, escolher personagens contraditórios, investigar com olhos de detetive, narrar de modo envolvente e não se esquivar dos aspectos íntimos quando relevantes. A arte da biografia, de modo paralelo aos ensinamentos de Janet Malcolm, aprofunda os dilemas éticos do biógrafo e o equilíbrio entre rigor documental e narrativa cativante.
Em Oswald de Andrade: Mau Selvagem, tais diretrizes são aplicadas em escala máxima. Lira escolhe um biografado que é o emblema da contradição — Oswald de Andrade é ao mesmo tempo “gênio e crápula”, combativo e frágil, o (anti) herói brasileiro por excelência. Para tal empreendimento, inicia a narrativa com uma cena impactante, evitando o clichê burocrático da data de nascimento. Reconstrói o ambiente histórico de São Paulo em transformação, fazendo da cidade um personagem. Lira aborda, sem os pudores das biografias anteriores do modernista, as turbulências íntimas de Oswald. Sob a mira de Janet Malcolm percebe-se de facto como a obra se sustenta no gesto de expor fragilidades: as paixões turbulentas, o sexismo incontornável, as brigas canhestras, as dívidas, os ressentimentos, a imagem pública de bufão. O biógrafo não poupa detalhes íntimos, mas tampouco os trata como mexericos; integra-os a uma narrativa em que as contradições são o combustível da criação, tanto do biógrafo como do biografado. A invasão, por fim, se transfigura em método crítico: abrir as gavetas de Oswald é também mostrar como ele mesmo encenava sua vida para a posteridade.
Lira Neto não se viu refém de um aparato familiar zeloso, diferentemente do caso estudado por Janet Malcolm. Marília de Andrade, última filha de Oswald, falecida logo após a publicação do livro, não exigiu ler nem aprovar o manuscrito, o que assegurou autonomia ao biógrafo. Ainda assim, Mau selvagem em vez de oferecer espetáculo cru, constrói sentido histórico e cultural. É voyeurismo assumido, mas convertido em narrativa crítica e rigorosa, resultado de quase vinte anos de gestação. Lira assume a ambição dupla de reconstituir com rigor factual a vida do escritor e reposicioná-lo como pensador perene do Brasil. O título escolhido é síntese dessa operação. “Mau” é a acusação que se converte em insígnia. A narrativa segue ordem cronológica, e a cada capítulo o biógrafo imprime um recorte interpretativo. O resultado é uma linha temporal que nunca se reduz à linearidade: cada momento é iluminado por temas que retornam, como a busca por liberdade formal, a polêmica como método, a auto-mitificação como estratégia de sobrevivência.
A infância de Oswald, sob a proteção da mãe, Dona Inês, e sob a influência do tio escritor, Herculano Inglês de Sousa, é o “marco zero” paradoxal e incontornável de seu caráter: o conforto burguês aliado à mania contestatória. A juventude boêmia em São Paulo revela o surgimento de uma persona irreverente, formada em O Pirralho, jornal satírico que já combinava política, cultura e escândalo. A primeira passagem por Paris marca o encontro com as vanguardas europeias e o início da maquinação dos manifestos que mudariam a história cultural do país.
O difícil fio da coerência da trajetória do escritor se mostra sobretudo na relação entre vida e obra. Cada experiência amorosa, cada crise financeira, cada polêmica pública reverbera em textos, manifestos, peças. Oswald viveu como escreveu, escreveu como viveu: de modo fragmentário, combativo, sempre em excesso.
O eixo central da biografia está na elaboração dos dois grandes manifestos modernistas. O Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924) rompe com o literatismo importado e propõe uma escrita “com os olhos livres”, baseada na matéria viva do Brasil. O Manifesto Antropófago (1928), por sua vez, transforma a devoração em metáfora de identidade cultural: absorver o estrangeiro, deglutir influências, produzir sínteses novas, a função original brasileira.
Lira não trata os manifestos como textos isolados, mas como atos de pensamento inseridos num contexto social. Mostra as tensões com Mário de Andrade, a recepção morna de parte da crítica, e por fim, as apropriações posteriores que consolidaram Oswald como o grande futurólogo do país. O leitor percebe como o que na época soava apenas como blague era, na verdade, um programa filosófico de alcance duradouro.
O texto de Lira Neto é rigoroso na fluidez. As descrições são vívidas, “presenças” no sentido gumbrechtiano: a São Paulo dos anos 1910 e 1920, os cafés parisienses, os salões literários. Os personagens secundários — Oreste Ristori, Voltolino, Pagu, Tarsila — surgem com densidade própria, compondo uma galeria que dá carne (com duplo sentido antropofágico) ao ambiente.
Outro recurso essencial é a polifonia. O livro incorpora a voz de Oswald e de seus contemporâneos: cartas, diários, artigos. Trechos saborosos — como Mário de Andrade chamando Oswald de “filho da puta gostoso” — convivem com análises críticas de Tristão de Athayde ou Sérgio Milliet. Essa multiplicidade de registros impede o achatamento biográfico e faz com que Oswald emerja polêmico, contraditório, múltiplo como deve ter sido.
A última parte da biografia mostra Oswald abatido. Sem dinheiro, com livros fora de catálogo, comparava-se a um toureiro velho, de armas rombudas e enferrujadas, sem espada para a luta final. Em entrevista, confessou-se “profundamente abatido, desiludido, porque meu chamado não teve resposta”. Como diria Antonio Candido, no prefácio a Um homem sem profissão, por trás do Quixote combativo havia um menino inconsolável.
Tal desfecho de vida leva o estudioso do modernismo brasileiro a pensar na autocrítica de Mário de Andrade em sua conferência O movimento modernista (1942), também nos estertores de sua trajetória paralela. Ali, Mário reconhecia: “O movimento foi essencialmente destruidor. Até destruidor de nós mesmos, porque o pragmatismo das pesquisas sempre enfraqueceu a liberdade da criação.” O balanço era menos celebração que lamento. Para o autor de Macunaíma, o modernismo demolira convenções, mas não erguera uma obra construtiva à altura do que prometia. O “testamento literário” que Mário redigiu e depois pediu para destruir é símbolo desse desencanto. Temos, assim, dois finais convergentes. Oswald, ressentido com o esquecimento; Mário, lúcido na frustração histórica. Ambos sentiram que o movimento que haviam fundado os havia consumido. Mas a posteridade reverteu a equação: Mário consolidou-se como referência maior da literatura e da crítica, ou, parafraseando Candido novamente, Mário foi a universidade de São Paulo antes da Universidade de São Paulo. Oswald foi redescoberto pelos concretistas, tropicalistas, marginais e, por fim, justiçado pela academia e pela história. A melancolia individual e intransponível de cada um dos Andrades não impediu que o modernismo triunfasse como processo coletivo no século XX brasileiro.
Mau selvagem restitui a Oswald de Andrade sua força criadora e sua centralidade no modernismo ao friccionar todas as suas contradições. O contraste entre o desalento individual e a potência histórica é, talvez, a maior lição da biografia: a modernidade brasileira é feita de promessas não cumpridas, mas que, mesmo assim, continuam a mover este país que é o maior campo de provas já elaborado pela humanidade.
Recensão publicada na Revista Colóquio Letras, número 221.