A Ciberbrás foi um núcleo experimental de cibernética, alocado dentro da Eletrobrás, durante o governo João Goulart (à direita na foto) , com apoio da Usiminas e relações com o Ministério da Educação de Darcy Ribeiro (à esquerda). Dirigido pelo inventor carioca Teófilo Alvim (ao centro), o laboratório pretendia desenvolver os primeiros autômatos burocráticos brasileiros. Seus primeiros protótipos foram concluídos no final de 1963. Poucas meses depois, o golpe militar que interrompeu a democracia forçou indiretamente o abandono do projeto confidencial de Jango.

Teófilo e o braço protótipo de um autômato antropomorfo no que parece ser o laboratório da Ciberbrás.

Três décadas depois, em 1995, quando os antigos sistemas de BBS (Bulletin Board Service) começavam a ceder lugar à internet discada no Brasil, descobriu-se num sobrado abandonado na região da Gamboa, zona portuária do Rio de Janeiro, o que restava desta insólita experiência tecnológica brasileira. Entre escombros, mofo, mobília apodrecida, tranqueiras inexplicáveis e caixas de documentos lacrados, jazia o que restou da improvável Ciberbrás.

Logotipo da Ciberbrás, desenhado provavelmente por Aloísio Magalhães.

Após meses de silenciosa investigação para identificar do que se tratava toda aquela parafernália, e compreender minimamente seu funcionamento, os oito autômatos foram reativados e demonstraram condições surpreendentemente boas de conservação. Progressivamente os robozinhos recuperaram suas atribuições originais e reconheceram os documentos e instrumentos que haviam sido deixados sob sua responsabilidade.

Todavia, como se sabe, durante os anos em que permaneceram desligados, o mundo conhecera os satélites de comunicação, a corrida espacial, os computadores pessoais e, finalmente, a internet. Sempre destemidos, fazendo uso impróprio dos cabos da Telerj (já então, Telemar), os autômatos sse conectaram à rede mundial de computadores e não encontraram maiores dificuldades para assimilar suas informações e hackear as novas tecnologias.

A responsabilidade pela existência até então desconhecida dos robôs veio de Teófilo Alvim. Grande parte de seus cadernos e de documentos classificados pelo governo brasileiro parmaneceram intocados no sobrado da Gamboa. O trabalho principal dos autômatos, desde então, é organizar os acervos de Teófilo e da Ciberbrás, e reconstituir todos os seus projetos originais. Inclusive os mais desvairados.

Entre estes, havia um plano extremamente detalhado pelo inventor carioca que ultrapassava consideravelmente as atividades práticas da Ciberbrás e da própria física. A par dos rumores da intervenção dos Estados Unidos no governo de João Goulart, Teófilo, acometido de paranoia (e de complexo de Jules Verne), pretendia nada menos do que transferir todo o laboratório cibernético para a Lua (sem desconfiar que pouco depois os estadunidenses também por lá pisariam) o quanto antes.

A ideia se relacionava às pesquisas de seu avô, o já citado artista Henrique Alvim Corrêa (1876–1910), celebrizado postumamente pelas ilustrações que fez de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells. Entre os papéis do sobrado, não havia apenas esboços dos desenhos do avô de Teófilo para o livro do ficcionista inglês. Havia também estudos mecânicos avançados, fotografias de um pequeno protótipo do famoso tripod marciano e profusos devaneios astro-físicos sobre como tornar a máquina voadora em realidade. A intenção de Teófilo era adaptar o delírio do avô ao seu próprio delírio. O plano extremamente fantasioso para a época, como se sabe, nunca foi executado. Jango foi deposto e Teófilo desapareceu do país e da história brasileira da mesma maneira que entrou.

Henrique e a maquete de seu tripode marciano, em 1903.

Nos anos 1990, como a Lua já não oferecia as condições de isolamento desejadas originalmente por Teófilo, restava Marte, sua segunda opção. Os oito autômatos despertos, como vimos, reuniram componentes eletrônicos novos, recuperaram motores e instrumentos analógicos, adaptaram equipamentos de informática à peças de ferro velho e construíram uma série de máquinas destinadas à catalogação, conservação, leitura e processamento de documentos. Mas, paralelamente, sem qualquer interrupção, ponderação ou assombro, o octeto ia construindo sua versão atualizada do tripod marciano.

Com a aproximação do ano 2000, a possibilidade de que o chamado bug do milênio comprometesse os sistemas informatizados de todo o planeta, representava uma ameaça particularmente grave para as máquinas que haviam acabado de incorporar a informática às suas funções. Os oito autômatos concluíram que seria prudente escapulir da Terra antes da virada do calendário, levando consigo os documentos, equipamentos e demais materiais escondidos no sobrado. Na noite de 31 de dezembro de 1999, enquanto Copacabana celebrava com fogos a chegada do novo milênio, o tripod marciano deixou discretamente a Gamboa rumo ao espaço sideral. Tempos depois, chegaram à Marte.

Por vontade tácita dos autômatos, a fachada do antigo sobrado carioca foi posteriormente reproduzida na superfície marciana, mantendo as proporções e características da construção original. Sob ela, encontram-se as salas de máquinas e os arquivos revitalizados da Ciberbrás que hoje constituem o marovatto.org. Mas a história não acaba por aqui. Muito pelo contrário.

A instalação do complexo cibernético em Marte permitiu também a retomada do projeto estabelecido entre a Ciberbrás e o Ministério da Educação, de Darcy Ribeiro: uma segunda geração de autômatos, maiores, dotados de características antropomórficas e plenos de consciência e inteligência, feitos para pensar. Curiosamente, conforme indicam os documentos, foi Darcy Ribeiro quem primeiro demonstrou entusiasmo incomum pelo projeto, contribuindo com sugestões para a construção daqueles que seriam os "primeiros brasileiros robóticos". Em contraste com o belicismo que identificava em parte do imaginário anglo-saxão, Darcy defendia a criação de seres mecânicos destinados à convivência, à cooperação e ao desenvolvimento do conhecimento, e não à guerra ou à conquista territorial.

Coube a Quadrino, Bifório, Roseta, Fortunato, Zunzum, Gaveto, Noctílio e Olívio, já instalados em Marte, transformar desenhos, cálculos e anotações quase incipientes em uma nova geração de seres inteligentes.