Bem-vindo ao marovatto.org. Nossas instalações ficam em Marte, num sobradinho pros lados da Amazonis Planitia, no hemisfério norte do planeta, imediatamente a oeste/noroeste da grande região vulcânica de Tharsis e do Olympus Mons. No segundo andar é onde estão os escritórios da Fábrica de Parafusos Marte, conforme a bandeira indicativa. O exterior do nosso prédio, feito com pedras nativas, é uma sobra do período Pereira Passos, arquitetonicamente falando, e nossa espaço-nave tripod (curiosamente quadrúpede) é da mesma época: foi projetada e construída por Henrique Alvim Corrêa ainda em 1903, e mantida com peças originais desde então (inclusive o motor). Funciona perfeitamente, transportando toda sorte de documentos do planeta Terra para cá com disciplinada frequência. Foi o próprio Henrique, que sugeriu por carta a nós pósteros, dada a comodidade de seu experimento, que instalássemos tudo por aqui em Marte mesmo, bem antes da chegada dos bilionários. Por enquanto, nem o robozinho da Nasa passou por aqui.

Bom, uma vez no rés-do-chão, convidamos os visitantes a tomarem o elevador no fundo do sobradinho rumo ao subsolo para conhecer um pouco de nossas instalações, equipamentos e nossos funcionários.

Já aqui no subsolo, em ambiente devidamente iluminado, temos a Sala de Recepção e Catalogação do marovatto.org — deliberadamente analógica em relação aos demais setores. A SRC é a primeira sala por onde passam os documentos enviados diariamente da Terra. Correspondências, datiloscritos, livros, imagens, periódicos, gravações, documentos administrativos e todo tipo de material ainda não processado chegam aqui em remessas, são desembalados e recebem sua primeira identificação.

As inúmeras gavetas dos arquivos metálicos do outro lado da sala, representados nestas duas outras fotos, guardam esse material de tamanho variável. Mas, note bem, as pilhas sobre os móveis não é bagunça. É o trabalho do dia da foto (uma segunda-feira), ainda em processamento. Depois dessa triagem, cada documento recebe seu destino dentro do nosso complexo marciano.

Ao lado esquerdo do elevador, na primeira foto, está a mesa de catalogação, talvez o lugar mais burocraticamente terrestre de toda a instalação, preservado de acordo com normas arquivísticas anteriores à cibernética e à informatização. A cadeira é onde me sento as manhãs. Tomo ali meu primeiro café, examino o material recém-chegado e faço as primeiras anotações do dia.

Vamos, agora, rapidamente aos demais ambientes visitáveis do marovatto.org para uma breve apresentação do nosso sofisticado hardware.

Aqui temos os equipamentos da Sala de Transdução:

Kaligrafo: ao centro, máquina rosa de escrever com visor analógico. Transcritor-chefe. Você fala e ele escreve. 

Lexigravo: à esquerda do Kaligrafo, uma espécie de teletipo ou terminal de texto. Impressor contínuo de documentos.

Oratón: à direita do Kaligrafo, uma máquina de ditado automatizado com bocal em espiral. Vocalizador de entradas textuais.

Depobox: na frente, à esquerda — espécie de gaveteiro com bobinas de fita. Registrador de depoimentos.

Docutron: ao fundo, centro-direita — painel analógico com mostradores redondos e botões. Núcleo regulador do arquivo. Controla o fluxo documental de acesso. Sempre em modo vigilante.

Memória Maior: conjunto de fichários verticais ao fundo. Armazena documentos “em repouso”, isto é, aqueles que ainda não foram despertados para uso.

Fotobloc: à direita da mesa, máquina com vidro transparente. Scanner óptico. Corrige imperfeições, mas mantendo as cicatrizes da passagem do tempo sobre o documento visíveis, conforme as normas.

Microcordis: em frente, no chão à direita — tipo de gaveteiro com mecanismos internos. Arquiva e lê arquivos já quase ilegíveis graças à sua luz infratextual.

Sonovox: à esquerda, mesa com teclado luminoso. Instrumento musical textual. Cada um usa à sua maneira.

Tipogênese: na frente, à direita — uma máquina de escrever manual. Reprodutor mecânico de texto.

Aqui, a Sala de Conversão Multimodal. Temos:

Sonotermix: extrema esquerda, aparelho com VU meters acesos e painéis pretos. Central de mixagem sonora.

Dactilofix: Em frente ao Sonotermix, máquina de escrever sobre gabinete cromado.Antigo e funcional redator de relatórios mecanizado. Mas, digita apenas em itálico.

Fitobrax: centro da imagem, aparelho de rolo magnético em carcaça clara. Transcodificador de fitas. Também serve como rádio.

Duplacript: logo abaixo do Fitobrax, tipo de terminal baixo com teclado retrô. Máquina de editoração criptográfica.

Polivoxígono: centro-direita, sistema com toca-discos, gavetas e painel de luzes. Estação híbrida de som e texto.

Telelector: à direita do Polivoxígono, terminal com lente tipo projetor. Leitor óptico de manuscritos miniaturizados. Projeta em escala legível arquivos ilegíveis a olho nu. Funciona à manivela.

Filozkopia: conjunto superior à direita com duas telas (verde e azul). Consoles de rastreamento e visão textual de sinais vindo do espaço. Excelente fonte de notícias.

Kinescan: terminal à direita das TVs, com bobinas e uma espécie de rolo de filme. Conecta imagens às palavras-chave armazenadas nos autômatos.

Classígrafo: fichários centrais empilhados entre os módulos. Organizador de taxonomias mutantes. Elas sempre mudam.

Luzadora: painel iluminado com matriz de lâmpadas e traçados técnicos. Sistema de correção de falhas gráficas.

Por fim, a última sala visitável de nossas instalações, a Sala de Vigilância Textual.

Radiotermo: extrema esquerda, torre com cápsula incandescente e controles digitais. Esterilizador de papéis contaminados. No espaço tem dessas coisas.

Minorama: terminal com tela âmbar diante do Radiotermo. Monitor de correspondências e bilhetes entre a equipe.

Sinalética: torre estreita preta com fenda vertical. Antena de escuta passiva. Lida com campos eletromagnéticos. 

Fichário Interditado: gaveteiro de documentos ocultos. Guarda arquivos de leitura duvidosa.

VU-Luminar: ao lado direito do Fichário Interditado, equipamento com mostradores e gavetas. Leitor de variações textuais. Útil à crítica genética. 

Oscilador semiótico: centro-direita, torre com tela de osciloscópio laranja. Analisa estruturas textuais. Deveria prever se determinado texto resiste ao tempo e outras intempéries, de acordo com o manual. Deveria.

Dactilautoma V: mesa dobrável à direita com máquina de escrever, luminária e leitor. Robô taquígrafo. 

Tapecode: mesa baixa com dois gravadores de rolo. Dispositivo de escuta comparada. 

Curiosos para conhecer nossa equipe de autômatos? Sigam por aqui.